O escritor Mário de Andrade (1893-1945) compartilhava sentimentos, alegrias e ansiedades na correspondência que trocava com outros artistas, esparramando-se em textos que muitas vezes pareciam poema em prosa. Já a artista plástica Tarsila do Amaral (1886-1973) era breve, estudada, seca até, em suas respostas. Mesmo assim, mantiveram uma importante amizade epistolar. Entre 1922 e 1940, ele encaminhou para ela 17 documentos, entre longas cartas, um bilhete e um telegrama. No sentido inverso, Tarsila enviou uma correspondência com 12 itens, entre bilhetes, cartões e cartas rápidas.
A comunicação permitiu um enriquecimento intelectual mútuo, como se pode observar em ''Correspondência - Mário de Andrade & Tarsila do Amaral'' (240 páginas), o segundo volume que a Edusp e Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) lançam sobre o arquivo de cartas do escritor - o primeiro exibiu a correspondência trocada com o poeta Manuel Bandeira e o próximo vai mostrar a troca de cartas com o jornalista carioca Newton Freitas.
O livro é organizado por Aracy Amaral, que observa a presença de um terceiro interlocutor, o correspondente ''oculto'' presente nas cartas: Oswald de Andrade, na época casado com Tarsila e, à despeito seu ciúme, escritor com quem Mário indiretamente se corresponde por meio da pintora. Mesmo não escrevendo uma linha, Oswald conduz espiritualmente a comunicação - Aracy escreve que é ''surpreendente, nos anos do modernismo mais ativo, anos de 1920, como a amizade de Mário para com Tarsila pode resistir a seu romance e união com Oswald de Andrade, frente a todas as intrigas, brigas de grupo, ciumeiras, usuais em movimentos intelectuais e artísticos ocorridos nesses anos''.
A resistência se explica pelo carinho com que Mário tratava a amiga, compreensível pela doçura da personalidade da pintora. O escritor, aliás, não se preocupava em disfarçar as referências a Oswald em suas cartas. Uma delas é endereçada ao casal ''Tarsivaldo'', mistura de Tarsila com Osvaldo, forma irônica com que Mário tratava o autor de ''Os Condenados''. Assim, Mário aproveitou a correspondência com a amiga para passar recados ao escritor que, acreditava, certamente lia as cartas recebidas pela mulher.
O início da década de 30 foi marcado não apenas por radicais mudanças econômicas mundiais (causadas especialmente pela quebra da bolsa de Nova York, em 1929), mas também por alterações de caminhos entre os modernistas. Tarsila, por exemplo, separou-se de Oswald, que já revelava interesse em Patrícia Galvão, a Pagu. Sem a presença do interlocutor oculto, Tarsila, agora ao lado do psiquiatra Osório César, sente-se mais à vontade para se corresponder com o amigo.
Na viagem que o casal fez à União Soviética, em 1931, foi mantida a correspondência com Mário de Andrade, agora em um tom mais ameno e mais informativo, sem a ironia que marcou a primeira fase da relação entre o escritor e a pintora. ''Vemos nessas cartas um intercâmbio de notícias e impressões, e não mais um confronto'', comenta Aracy Amaral. Mesmo que a relação de Tarsila com César não tenha durado tanto (em 1934, uniu-se ao escritor Luiz Martins, com quem ficou até 1950), ela adotou uma escrita mais tranquila, o que refletiu também uma mudança em seu estilo de vida, além de um abandono do ideário modernista, perceptível em algumas debilidades e desvios em sua pintura que, desde o início, parecia seguir com firmeza o caminho do pós-cubismo. Os últimos escritos trocados por Mário e Tarsila foram em 1940.

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