Mário Bortolotto, ao contrário de seus torturados personagens, anda numa boa com a vida. Receber o convite de Edson Bueno para inaugurar o ciclo de leituras dramáticas foi um ponto a mais a pesar na balança das coisas favoráveis. Como não tem previsão de levar a peça ao palco, ele ‘‘queria ler’’ para as pessoas, como disse à Folha2, por telefone. A vontade estará se concretizando.
‘‘O texto tem que ser lido em voz alta’’, argumenta o escritor. Em São Paulo vários ciclos estão acontecendo, e sempre que pode Bortolotto está presente. ‘‘Acho muito legal’’, afirma. ‘‘Hotel Lancaster’’, o trabalho que apresentará em Curitiba, foi escrito no ano passado para um concurso de combate às drogas, promovido pelo governo. ‘‘É claro que não ganhei nada’’, diverte-se.
A ambientação está centrada no hotel que dá título à peça. Dos sete personagens, quatro são traficantes que frequentam o local. O céu ilusório e o inferno concreto misturam-se na vertigem das vidas violentadas. Este é mais um texto do autor sem data para ser montado.
Bortolotto comenta que trabalha muito para ganhar pouco. Premiado recentemente com o Shell teve as atenções voltadas para si e sua obra, mas isso é passageiro. Sem grandes mudanças. O dinheiro que entrou deu para pagar as contas. Foi o que valeu.
‘‘Não são prêmios que abrem portas. Mais eficiente é você ser bem relacionado para ter teatro onde se apresentar, ganhar patrocínio’’, ensina. Sua obra despertou o reconhecimento da crítica e do público, mas ‘‘continuo sendo o rei da recusa. Não consigo patrocínio desde o ano passado’’.
O espaço fecha-se aos poucos, mesmo assim o artista não se deixa intimidar.‘‘Sou muito tranquilo. Faço o meu trabalho como há 20 anos: se me falta teatro, monto a peça num quartinho. Às vezes o preço é esse, mas faço o que quero e isso é muito legal. Triste mesmo é ver neguinho bem posicionado reclamando da vida. Isso estou cansado de ver, mas eu estou tranquilo e feliz’’. (Z.C.L.)

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