Mário Bortolotto e as mulheres de Bukowski
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 03 de janeiro de 2013
Nelson Sato<br>Reportagem Local 
O dramaturgo Mário Bortolotto está se preparando para viver no palco um dos personagens mais estimados de seu extenso repertório de leituras: "Henry Chinaski", alter-ego do escritor Charles Bukowski (1920-1994). Será uma adaptação do romance "Mulheres", publicado no Brasil em meados da década de 80 e que influenciou profundamente o artista quando ele ainda morava em Londrina e - ao lado de amigos vivia na Biblioteca Pública Municipal devorando títulos de literatura beat e principalmente do célebre autor norte-americano de origem alemã.
A peça estreia dia 16 de janeiro no Teatro e Bar Cemitério de Automóveis, em São Paulo. "É um trabalho difícil, muito difícil. É só isso que posso dizer no momento", diz ele, em mensagem pelo Facebook. A atriz Fernanda D´Umbra dirige e também atua na montagem. O elenco traz ainda Danielle Cabral, Wanessa Rudmer, Samya Enes, Débora Ester, Maria Tuca Fanchin, Pablo Perosa e Walter Figueiredo.
"Mulheres" narra as aventuras de um Chinaski cinquentão às voltas com o sucesso tardio como escritor. A fama inesperada quebra um longo intervalo de vida longe das mulheres trazendo-as de volta para seu convívio. Num texto publicado recentemente em seu blog, Bortolotto assinala que autores como Bukowski, Jack Kerouac e John Fante o "salvaram" de ser apenas um garoto solitário, melancólico e sem esperança. "Quer dizer, hoje eu sou um bosta solitário, melancólico e sem esperança, mas eu tenho consciência disso tudo. E essa consciência eu devo a esses caras geniais", escreveu.
No mesmo texto, sublinha a expectativa de fazer a adaptação. "O que era só uma idéia maluca virou realidade. É responsa? Claro que é. Mas viver também é. E eu nunca tive medo de porra nenhuma. Confesso que tô comovido de novo. E renovado. E é isso que move essa porra de vida, não é? Tô começando a achar que todo o resto não tem mais muita importância."
Além desse espetáculo, ele pretende movimentar o teatro-bar com uma agenda fixa de outras três peças semanais neste primeiro semestre de 2013. O espaço foi inaugurado há um mês, adquirido em sociedade com a atriz Danielle Cabral (que, aliás foi a responsável pela montagem de Bukowski ao fazer a sugestão para o dramaturgo). O endereço já abrigou o Teatro Estação Caneca. "Não foi uma decisão muito pensada. Pintou a oportunidade. O antigo dono ofereceu o ponto, minha sócia me propôs, eu tinha algum dinheiro que eu estava guardando pra dar entrada num apartamento e resolvi investir nessa loucura. Nunca fui um cara muito sensato, né? Tem que pagar aluguel do mesmo jeito. E como teatro é algo que não dá dinheiro, a gente vai ter que se sustentar com o bar e com o aluguel da sala de ensaios", explica.
De março a dezembro, Bortolotto realizou no local uma Mostra de espetáculos para comemorar os 30 anos do grupo Cemitério de Automóveis, fundado ainda em Londrina. Recentemente, ele publicou um novo livro, "Anos do Furacão", coletânea de textos publicados originalmente entre 2006 e 2011 em seu blog. "É um livro meio tristão, meio barra pesada. Compreende os anos que passei sozinho depois da separação da minha mulher. São anos que eu andei enfiando o pé na jaca total até o incidente com os tiros que levei. É dividido em duas partes: 'Antes da Queda' (antes dos tiros) e 'Depois da queda' (depois dos tiros)", conta.
O incidente a que ele se refere ocorreu no final de 2009, quando foi baleado durante uma tentativa de assalto ao Espaço Parlapatões, na praça Roosevelt, no centro da capital paulista.
O livro chegou às prateleiras pela editora Realejo, de Santos (SP). Outra novidade para 2013 é o lançamento do segundo CD de sua banda de rock e blues Saco de Ratos. O disco, segundo o artista, está em fase de gravação.


