Depois de quatro anos sem uma secretaria, a área de Cultura em Maringá comemora agora o status de pasta municipal. Mesmo sem dinheiro por falta de previsão orçamentária, a nova secretaria tem projetos interessantes e inovadores, como a organização da classe artística para que os grupos se transformem em entidades e formem um Conselho Municipal de Cultura. Além disso, a popularização – principal marca da atual gestão petista – deve chegar ao imponente Teatro Calil Haddad, que passa a ficar aberto para visitas nos finais de semana à tarde.
O novo secretário, João Laércio Lopes, 35 anos, é historiador e funcionário da prefeitura há 16 anos. Animado com a função, ele quer acabar com a idéia de que Maringá é fraca culturalmente. Para isso, pretende colocar o poder público à disposição dos artistas na divulgação constante dos eventos programados na cidade. Leia a seguir, trechos da entrevista que o novo secretário concedeu à Folha 2.
Qual a importância da Cultura voltar a ter o status de secretaria depois de passar quatro anos como diretoria inserida na pasta de Educação?
A importância é bastante ampla, mas destaco três. Primeiro no aspecto simbólico, da auto-estima dos funcionários e da própria comunidade artística sabendo que hoje existe uma Secretaria de Cultura com objetivo de trabalhar para a elevação das manifestações artístico-culturais da cidade. O artista da cidade sabe agora onde procurar apoio e amparo dentro da prefeitura. Outro aspecto é quanto a agilidade na questão burocrática porque enquanto diretoria é preciso ter anuência de outro secretário ao passo que como secretaria você consegue agilizar os processos burocráticos e a papelada toda anda de maneira mais rápida. Há um fluxo dinâmico da burocracia e do desenrolar administrativo. O terceiro é quanto a questão da capacidade de captação de recursos. Como secretaria existe muito mais poder para pleitear verbas e recursos junto ao empresariado, entidades financiadoras, órgãos governamentais, tanto no âmbito estadual como federal. Ou seja, a secretaria passa a ter um poder de fogo maior para poder atrair capital e recursos para os projetos culturais.
Diante desta importância configura-se como um descaso o fato de Maringá ter ficado tanto tempo sem uma Secretaria de Cultura?
Nós perdemos muito não tendo uma Secretaria de Cultura. Se resgatarmos um pouco a história deste processo vamos verificar que de 1983 a 1988 a Cultura era secretaria. Em 1989, transformou-se em diretoria e em 1993 voltou a ser secretaria, mas em 1997 retrocedeu á condição de diretoria, o que se manteve até o ano passado. Foram oitos anos de gestões alternadas da Cultura como diretoria.
Quais os motivos desta instabilidade?
Não consigo entender por que nas gestões dos prefeitos Ricardo Barros (hoje deputado federal pelo PPB) e Jairo Gianoto (sem partido) a Cultura não mereceu ter uma secretaria. Por isso, perdemos muito, ainda mais para uma cidade do porte de Maringá. Veja a nossa estrutura: temos quatro teatros municipais, um museu de história e arte, cinco bibliotecas, um curso de dança, um centro de ação cultural e uma banda. Só esta estrutura é razão mais do que suficiente para a existência de uma secretaria. Então, as duas gestões não tiveram sensibilidade para perceber que a Cultura necessitava de uma secretaria até para uma melhor administração. Foi uma pena. Com certeza perdemos e muito, mas espero que não tenha sido uma perda irreparável e que consigamos recuperar o tempo perdido.
Quando o senhor assumiu disse que a secretaria tinha duas prioridades: a organização da classe artística e a descentralização das atividades. Como será feita a organização dos artistas?
O primeiro passo é a abertura integral da Secretaria de Cultura para os artistas. Nós nunca podemos bloquear o acesso de algum artista local que procure a secretaria. Desde que assumi, no dia 2 de janeiro, primeiro na função de diretor e agora como secretário, nunca me furtei a receber alguém que tenha me procurado. Acho que este é um princípio básico de qualquer dirigente cultural de um município. Atender a todos que solicitem uma audiência ou uma conversa. O segundo passo é chamar para si a responsabilidade de organizar os artistas. Desde janeiro já sentamos com vários segmentos, artes, música, teatro e dança, exatamente para que eles se organizem como entidade para compor o Conselho Municipal de Cultura. Este conselho que iremos criar será uma instância para deliberar sobre a política cultural do município porque Maringá sempre padeceu da inexistência deste tipo de política que nós vamos tentar criar e para isso precisamos que os artistas estejam organizados enquanto entidade. O município, através da Secretaria de Cultura, não pode se colocar em posição de antagonismo e de oponência à classe artística, mas se colocar como parceiro, contribuindo para o crescimento cultural.
Na sua opinião, no que vai resultar a organização da classe artística?
A atual desorganização da classe talvez seja uma das razões para que muita gente tenha uma visão, até certo ponto equivocada, de que Maringá não tem cultura ou de que é uma cidade fraca culturalmente. Eu tenho uma visão diferente. Acho que as pessoas em Maringá não percebem as atividades que ocorrem nesta cidade de 300 mil habitantes. Ninguém pode ter a pretensão de saber sobre todos os eventos culturais que estão ocorrendo neste momento. A mídia, impressa e eletrônica, na verdade não cobre tudo o que acontece. É muito difícil fazer esta cobertura total. Então nós temos que investir muito, enquanto poder público, na divulgação destes eventos, sejam eles de iniciativa pública ou privada. Como não visamos retorno financeiro, como qualquer órgão de comunicação visa porque é uma empresa, vamos fazer este trabalho de divulgação tendo claro a existência da massificação da informação para que as pessoas saibam o que está ocorrendo na área cultural da cidade.
Qual o papel do Conselho Municipal de Cultura?
O Conselho pode ter várias funções e uma delas é exatamente o de organizar comissões para ir à cata de patrocínios junto ao empresariado local ou às entidades que congreguem empresários. Acho que a essência do Conselho é quanto à democratização das decisões e a divisão de responsabilidades, porque não podemos querer que a Secretaria de Cultura chame para si toda a responsabilidade no que diz respeito às decisões da área. De uma certa maneira estamos queremos socializar as decisões e os rumos a serem tomados por nós.
E o trabalho da descentralização, como será feito?
Percebemos que vários bairros de Maringá são carentes de alternativas culturais, como também de esporte e lazer. Então, para amenizar os problemas, já que não é possível resolver todos, estamos levando manifestações culturais para os bairros mais distantes, com apresentações de música, dança e teatro. De certa forma já começamos a fazer isso na prática com a ‘‘Rua da Cultura’’ desenvolvido pela Biblioteca do Parque das Palmeiras. Esta experiência é uma espécie de laboratório e a tendência é se estender para os demais bairros. A idéia é descentralizar, mas sem esquecer a qualidade. Através da ‘‘Festa Popular’’ estamos na prática tentando aproveitar os 10 centros esportivos localizados nos bairros. É um evento que acontece no domingo à tarde, a partir das 14 horas, e consiste basicamente em atividades esportivas entremeadas com uma programação artístico-cultural. Montamos palco, equipamento de som e a Secretaria de Esportes desloca profissionais para atividades recreativas, aproveitando a estrutura do centro esportivo que geralmente tem um ‘‘kit básico’’ que é a quadra, uma piscina e uma pista de bocha. Uns têm mais estrutura e outros menos.
E como vocês estão se ‘‘virando’’ para obter recursos, já que a antiga diretoria não tinha e nem a atual secretaria tem previsão orçamentária?
De fato não nos deixaram nada. Então estamos trabalhando em um regime de sobrevivência. Agora, como secretaria, vamos sentar e definir um valor para 2002 e daí a história vai ser diferente.
Na gestão anterior vinha muito para Maringá o teatro de artistas ‘‘globais’’ e o ingresso era alvo de crítica por causa do preço. Em termos de cultura ‘‘de fora’’ isto era só o que Maringá oferecia. Como a secretaria pretende trabalhar neste sentido?
A nossa idéia realmente não é de atuar como produtor cultural. Para a vinda de peças do eixo Rio-São Paulo, a gestão anterior entendeu que deveria bancar o cachê dos artistas. Nós entendemos que não é esta a função do poder público. O poder público tem que disponibilizar e desburocratizar o espaço, torná-lo acessível, mas não fazer o financiamento do espetáculo. Então, nós iremos trabalhar com a questão do percentual de bilheteria que é o que manda a lei. Não iremos bancar um espetáculo e trazê-lo a preço de ouro porque com este dinheiro é possível investir em projetos locais bem mais interessantes, como o projeto de descentralização.
É possível afirmar que a maioria da população de Maringá não conhece o Teatro Calil Haddad. Vocês pretendem popularizar este espaço?
Vamos atrair o público para o teatro de uma maneira que ele possa ter um espaço alternativo de lazer, de recreação e de cultura. Vamos realizar um sarau em pleno domingo à tarde onde vários grupos de teatro e música irão se apresentar no Calil Haddad. É assim que pretendemos começar a atrair as pessoas. Agora também começamos a abrir o teatro aos sábados e domingos das 14 às 18 horas para que as pessoas visitem o local e não só os turistas mas a própria comunidade. Sempre tem uma exposição no Museu de História e Arte (localizado no interior do teatro) e sempre quando tem alguma conferência, simpósio, palestra, ou seja, quando o teatro não é ocupado com fins artísticos-culturais, estamos ocupando o folier (saguão do teatro) com uma banda de música ou outra atração, para que as pessoas tenham contato com a arte mesmo quando vão para o teatro assistir a apresentações de outra natureza.
O senhor acha que Maringá ainda vai ficar sujeita à falta de estabilidade na Cultura, tendo agora uma secretaria e podendo no futuro voltar a ter apenas uma diretoria responsável pelo setor?
Independente da coloração partidária ou ideológica a secretaria é sempre necessária. Tomara que de agora em diante nós não tenhamos mais um rebaixamento de status da Cultura em Maringá. Acho que é um grande desprestígio para qualquer governante rebaixar a secretaria para diretoria. Espero que as pessoas tenham aprendido a lição e, independente de quem assuma a prefeitura, saibam que a Cultura merece e deve ter uma secretaria.

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