Marina virou a página. O eclipse emocional que abateu a cantora, a ponto de roubar-lhe a inspiração e até a voz nos últimos discos, já é coisa do passado. Foi deletado com o retorno aos palcos na temporada passada, quando quebrou um jejum de seis anos sem encarar platéias.
''Setembro'', seu novo e 16º álbum, confirma a reviravolta revelando uma intérprete vibrante e em pleno fluxo criativo como compositora. Todas as canções trazem sua assinatura, três delas em parceria com seu irmão Antonio Cícero. O disco marca a estréia na gravadora Abril Music, que a recomendou (embora ela negue na entrevista) trabalhar a toque de caixa para lançar o CD no pacote de fim de ano.
A urgência resultou num disco curto, de apenas 9 faixas inéditas acrescidas de três remixes. O material foi co-produzido por Edu Martins, que participou das gravações tocando vários instrumentos. Aos que forem testá-lo numa loja de discos, convém pular a faixa-título, que abre o repertório. ''Primavera / Tudo quer se experimentar / Todas as fronteiras / Querem evaporar / Quem não se encarar com amor / Vai terminar ovelha / No bolso de algum pastor'' canta ela.
Se a letra oferece um olhar atento às tensões do mundo, a melodia sofrível e o teclado pasteurizado são capazes de espantar o potencial consumidor. O restante do repertório, porém, desconta com sobras o deslize. ''No Escuro'' é a candidata a hit, já providencialmente incluída em trilha de novela. A intimista ''Dois Durões'' e a balada dolorida ''Alguma Prova'' sobressaem embutindo arranjos para violinos, cellos e violas sob a regência de Paschoal Perrota.
''Notícias'', parceria com Dalto e Claudio Rabello, vem apenas com voz e teclados. Em ''Me Diga (Francisca)'', Marina homenageia a piauiense que foi sua babá e que até hoje mora com sua mãe. ''Entre o nordeste que deixou na infância / e o Sul que nunca pareceu real / a Francisca tem saudade de uns lugares / que passam a existir quando ela os pinta / São mares turquesados e espumantes / em frente a uns casarões abandonados que, não sei bem por que, nos desamparam'' diz um trecho da letra, que é declamada por Antonio Cícero em duo com a cantora.
De brincadeira, Marina inclui um funk mixando loops e teclados com latidos e rosnados de seus cachorros. Fechando o CD, apresenta as versões eletrônicas alternativas de ''Notícias'' (house), ''No Escuro'' (house) e ''Setembro'' (drum'n'bass). As duas primeiras assinadas por Felipe Venâncio e Alex Reis e a última por Xerxes de Oliveira.
Variado e recheado de boas canções, o álbum parece exorcizar de vez os extravios de percurso da cantora. Chega às lojas simultaneamente à reedição de ''Simples como Fogo'', seu disco de estréia, lançado pela Warner em 1980.








Você assina todas as faixas do disco. É seu trabalho mais autoral?
Marina: É meu primeiro disco inteiramente autoral. Escrevi as letras de ''Dois Durões'' e de ''Terra à Vista'' (esta na época em que posei nua para Playboy), mas compus as músicas das demais. Estou eufórica. Depois que passei pelas aulas de piano, abri um novo espectro de criação. Outro fato novo é que desta vez também concebi os arranjos das composições. Antes, eu escrevia as canções e mostrava aos músicos para que eles fizessem os arranjos. Eu dava os conceitos, mas dependia deles. Agora, com essa história prática de fazer música em computador, acabei realizando esse desejo. Estou muito feliz com esse trabalho. Ele marca uma retomada e revela para o público onde está o meu encanto musical.

O disco tem 9 músicas inéditas e três remixes. Pelos padrões, é um disco curto. Houve pressão da gravadora para entregá-lo logo ao mercado?
Em 1983, eu lancei o disco ''Certos Acordes'' com apenas oito faixas. E esse foi o disco que o Nelson Motta declarou ter sido o responsável por sua descoberta de meu trabalho, o que prova que tamanho não é documento. O ''Setembro'' saiu com 9 faixas porque eu quis que saísse assim. Achei que elas fechavam o conceito. Não quis acrescentar outras para não confundir. Fora isso, eu queria gravar um disco com uns dois ou três remixes.

A relação com a gravadora foi tranquila?
O disco saiu do jeito que eu queria. Não houve imposição da Abril. Depois que eu deixei a Universal, passei a compor em casa. Eu tinha uma sensação de passe-livre como um jogador de futebol. Era uma coisa nova em minha carreira. Aí o Roberto Maynard, presidente da Abril Music, me ligou sugerindo a gravação de um disco. Então, eu e o Edu Martins fizemos a pré-produção e entramos no estúdio no dia 30 de setembro para colocar voz, violão, guitarra, cordas, bateria e percussão. Não houve pressões. Eu aceitei que fosse assim.

Você convidou os DJs Felipe Venâncio e Xerxes de Oliveira para produzirem os remixes do disco. Qual é a sua relação com a música eletrônica? Você frequenta raves ou clubes?
Minha relação é com a música, com a criação. Me interesso por tudo o que é contemporâneo a mim. Essa música híbrida, que é a trilha sonora de muita gente, é legítima. Quem atua no gênero cria solitariamente como um cientista. Alguns dizem que é uma moda passageira. Eu não acredito, acho que a música eletrônica não vai acabar, mas se transformar. Eu, como criadora, procuro estar atenta às coisas de meu tempo. E esses elementos entram como temperos, que trabalham para mim e não eu para eles. Não sou escrava de nada.

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