Marina Lima fala de música, crises e desejos
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terça-feira, 23 de outubro de 2012
Silas Martí <br> <br> Folhapress 
São Paulo - ''Teria que ser com alguém que saberia compreender o meu temperamento esquisito, a minha maneira difícil de ser.'' Marina Lima escreveu esses versos na primeira canção que assinou, ''Maneira de Ser'', em 1979. Agora, mais de três décadas depois, ela escolheu o nome dessa música para batizar seu primeiro livro.
''Não é uma biografia, é um livro que lida com assuntos que me tornaram o que sou hoje'', diz Marina, 57. ''Isso é o que eu trouxe comigo, é o que permaneceu. Não sou apegada ao passado, vou jogando tudo fora, e isso é o que ficou, o essencial.''
Essencial ou não, Marina fala de música, qualidade do ar em São Paulo, seus animais de estimação, seu apoio à legalização da maconha, a união de pessoas do mesmo sexo, a classe média do Brasil de Lula e Dilma, amigos que nunca saem de perto.
Desde que se mudou para a capital paulista há três anos, cansada da ''bela vista'' do Rio, ela diz ter ficado mais quieta, longe das festas e do mar, mergulhada na seleção de textos e nos escritos para o livro que lança agora.
Foi um tempo que casou com silêncio. Da ''voz do Brasil dos anos 80'' ou ''esfinge cool e suingante'', como críticos já a descreveram, Marina está hoje na sua, distante dos holofotes, focada na rotina de exercícios no Ibirapuera e concentrada em estudos compenetrados de timbres e frequências sonoras para seu novo disco, que deve sair só no ano que vem.
''São Paulo me dá a sensação de que eu tenho tudo aos meus pés'', diz a cantora. ''Aqui eu pude olhar para dentro de mim e posso falar sobre isso sem tanta distração, sem tanta coisa que possa me embriagar. Gosto de estar aqui, é quase como morar no estrangeiro, só que sempre falando a mesma língua.''
Essa língua franca parece ser algo encontrado agora. Do hiato na carreira, problemas com a voz e turnês canceladas, ela fala com parcimônia. Durante a entrevista, escolhe a dedo metáforas para explicar o que a levou à reclusão no fim da última década.
A sereia e o lápis
''O canto é uma coisa que hipnotiza. Ulisses, um grande guerreiro, podia ter morrido pelo canto de uma sereia'', diz Marina. ''Eu quis ser sereia e ouvinte, eu quebrei o lápis, e o lápis era eu. Não vale seduzir por seduzir, tem gente com uma voz linda e que não diz nada. Voz por voz não é algo que me interessa.''
Entre nomes com lindas vozes que, para ela, dizem algo, estão Billie Holiday (1915-59), Elis Regina (1945-82), Maria Bethânia e, agora, Ivete Sangalo. No livro, não economiza elogios à cantora baiana - ''sinto a dignidade e a verdade dela, porque ela não está cantando para seduzir''.
Marina, aliás, não quer estar mais nesse lugar da sedução. Diz que não voltaria à cena dos grandes shows e turnês se tivesse que ''mexer em pilares essenciais''. ''Minha função agora é passar adiante as coisas que eu percebo, importantes para traduzir o momento que a gente vive.''
E essa tradução não virá pela música. Marina, que se diz ''enlouquecida pelo ouvido'', nega que esteja pensando em desistir da música, mas confessa que o livro ''abre uma janela'' e que escrever um blog tem sido seu canal de expressão mais forte.
Tem a ver com sua ideia de paraíso. Nas suas palavras, esse seria uma ''ilha com sombra e frio (às vezes), ondas, internet e som (às vezes), e uma gente que eu adore''.
Serviço:
- ''Maneira de ser''
Autor - Marina Lima
Editora - Língua Geral
Páginas - 232
Quanto - R$ 53


