Por mais que emita sinais de lassidão, o Acústico MTV ainda é um projeto forte o suficiente para acalmar carreiras à beira do ostracismo. Portanto, chance como essa tão cedo não vai bater novamente na porta da encastelada Marina Lima. A cantora e compositora fez sua parte com o disco cheinho de sucessos um pouco adormecidos na memória coletiva e agora revisitados na contramão dos experimentos eletrônicos que estava praticando ultimamente.
Tem lá seus encantos, mas não dá para esquecer a grife ''Acústico MTV'' hoje ao alcance de bolsos e gostos curtos e longos, garantindo o sorriso de diretores das gravadoras, no caso a EMI para onde a artista retornou. ''Estou de volta à EMI, depois de passar por outras gravadoras, e estou muito feliz. Quero que esse reencontro seja definitivo'', disse Marina Lima em entrevista à Folha2.
Pacote completo: disco e DVD lançados com certa antecedência e um especial que será exibido hoje na MTV, às 22 horas. O show foi registrado nos dias 21 e 22 de março, no Estúdio de TV da Trama, em São Paulo. Como tem tudo para cair nas graças do público, Marina planeja sair em turnê Brasil afora. ''Vou começar por Belo Horizonte, no final do mês. Depois tenho shows marcados no Rio e em São Paulo. Mas espero visitar o Brasil todo com esse projeto'', disse ela.
O repertório de ''Acústico Marina Lima'' contempla principalmente a década de 80, fase mais produtiva e de maior visibilidade da dupla Marina-Antônio Cícero o final dos anos 90 foram embaçados por discos sisudos. ''Virgem'', canção emblemática de 87, dá o start nas releituras embora três faixas inéditas estejam diluídas entre hits. É a partir daí que também se percebe claramente que a cantora Marina Lima não está com a voz a todo vapor utiliza bem seu timbre quente, faz charmosos malabarismos vocais em registros graves e médios, mas notas mais altas são evitadas.
Como é praxe no projeto da MTV, artistas chamam convidados para os tradicionais duetos. O agora produtor Liminha foi convocado para dedilhar o baixo em ''Fullgás''. Alvin L., parceiro mais constante de Marina, participa das duas faixas inéditas ''Sugar'' e ''A Não ser Você'', roquinho inspirado e uma das faixas mais gratificantes. Fernanda Porto dá show de bola cantando e tocando sax em ''Charme do Mundo'' coisa boa!
A surpresa fica por conta de Martinho em ''Tom Maior'' e ''Arco de Luz'', samba mesmo que pouco ortodoxo , um gênero raríssimamente explorado por Marina. Aliás, são as canções inéditas que não permitem que o álbum descambe para releituras burocráticas. Das releituras, ''Grávida'' (91) e ''O Chamado'' (93) ganham contornos vocais e instrumentais interessantes.
Trocadilhos à parte, ''Acústico Marina'' é um disco redondinho, de consumo rápido, mas não descartável. Vale pela lembrança e pelo empenho de Marina ceder um pouco para dizer que está de volta com bossa e suingue. A seguir a entrevista que a cantora e compositora concedeu à Folha.
Como vai você? Pergunto sobre sua vida de uma maneira geral...
Tô feliz, animada como esse projeto e com a possibilidade de fazer shows pelo Brasil nesse formato acústico, que é tão bem assimilado. A vida pessoal vai bem também, obrigada. (risos)
Foi fácil olhar seus discos anteriores e compilar algumas músicas para o Acústico?
Foi difícil, são muitas músicas. Fiz uma espécie de cooperativa eu escolhi umas, peguei uma lista da gravadora, uma lista da MTV e uma outra lista de dois grandes amigos e fui vendo o que tinha em comum. E mesmo assim tem gente chateada, porque ficou muita coisa de fora. Não quis revisitar ''Acontecimentos'', por exemplo, porque cantei em todos os shows que fiz depois que lancei no Marina Lima. É preciso dar uma folga para quem tem me visto no palco e para mim também.
O Acústico MTV sempre teve uma boa receptividade, sempre alavancou vendagens e carreiras. Esse projeto para você veio na hora certa, demorou ou nem estava nos seus planos?
Quando surgiu o convite, eu estava envolvida com a influência da música eletrônica, algo antagônico ao formato do Acústico. Por isso, a princípio, resisti à idéia. Por outro lado, eu fiquei muito tempo ausente, sem fazer shows e o Brasil é um país enorme. O Acústico, por ser um formato vitorioso, estreita o elo de novo. Para mim, é uma linha quase estratégica de retornar e dizer ao Brasil: ''estou de volta, meu trabalho também está no baralho''.
Na sua opinião, por que o formato acústico agrada tanto?
Porque é popular. O brasileiro adora essa sonoridade, talvez pela familiaridade do violão na cultura musical do país.
Dos convidados a surpresa foi o Martinho da Vila. Essa empatia entre os dois vinha de há tempos ou se estabeleceu durante o disco?
Martinho da Vila é o Caymmi carioca. Sempre fiquei de olho no trabalho desse cara. Isso desde quando eu tinha 12 anos e ia com os meus primos às rodas de samba que aconteciam no Teatro Opinião, aqui no Rio. Foi quando comecei a ouvir os discos de Martinho da Vila. Acho que a música ''Arco de Luz'' ficou bacana, fiz uma homenagem a ele.
Você ainda está trabalhando com regiões mais confortáveis da sua voz, com timbres graves e médios. Na sua avaliação, como está o instrumento principal da cantora Marina Lima?
A voz está boa. Tenho feito muitos shows, ensaios... Tudo isso exercita e ajuda a musculatura vocal. Tem sido bom cantar sempre, ajuda muito.
Você estava colhendo material para o próximo disco. Essas três inéditas gravadas no Acústico seriam incluídas?
Essas três músicas apontam para o meu futuro e interesse musical. O que virá depois ainda é um grande mistério pra mim.

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