O ciclo de estiagem criativa parece interminável. Se bobear, a cantora Marina Lima vai completar uma década divorciada de seus antigos admiradores, ainda que a cada temporada conquiste alguns simpatizantes ao confessar suas fragilidades em público.
‘‘Síssi na Sua ao Vivo’’ (Universal), seu novo trabalho, é o registro dos shows que fez entre o final de setembro e começo de outubro no DirecTV Music Hall, em São Paulo. Soa como uma adesão tardia à avalanche de discos ao vivo que inundou as lojas do país nos dois últimos anos.
Mas em seu caso, há uma ressalva: os shows tiveram o significado especial de uma volta aos palcos, depois de ficar seis anos longe das platéias – três dos quais em profunda depressão, como ela mesmo revelou em entrevistas. E, mais do que isso, as apresentações serviriam como teste definitivo para suas cordas vocais, que tanta boataria e constrangimento provocaram depois das hesitantes performances nos álbuns ‘‘Registros à Meia Voz’’ (1996) e ‘‘Pierrot do Brasil’’ (1998).
A turnê começou em junho em Juiz de Fora e terminou no Rio de Janeiro em dezembro. Ao todo, foram 25 apresentações incluindo Curitiba, Belo Horizonte e cidades do Sul. No disco, Marina chega a surpreender trazendo os agudos intensos de volta, embora drible notas interpretando algumas canções num tom diferente da gravação original.
O problema é o repertório: aguado no disco 1 e irregular no disco 2. Se o primeiro CD empresta a maioria das faixas do insôsso ‘‘Pierrot’’, o segundo CD mescla sucessos (‘‘Fullgás’’, ‘‘Pra Começar’’, ‘‘Virgem’’, ‘‘Acontecimentos’’) com três músicas inéditas – ‘‘Mel da Lenda’’ (parceria de Marina com Willian Magalhães), ‘‘Síssi’’ (com letra da escritora Fernanda Young) e ‘‘Estou Assim’’ (também de Fernanda Young).
‘‘Estou assim / Como o mar que não chega na areia / Estou assim / Com esse sangue estancado na veia / Até você me ligar’’ – diz, sob roupagem eletrônica, os versos iniciais desta última. É um dos poucos momentos empolgantes do disco, ao lado da funkeada ‘‘À Francesa’’, que é acompanhada em coro pelo público. Fernanda Young assina também um texto introdutório, narrado por Marina e Enrique Diaz (responsável pela direção dos shows da turnê).
Diaz recita ainda um fragmento do poema ‘‘Os Ombros Suportam o Mundo’’, de Carlos Drummmond de Andrade. É muita literatura para um pastel de vento.

mockup