MARÍLIA PÊRA VOLTA A CANTAR
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sábado, 14 de outubro de 2000
Valmir Santos Agência Folha 
Não é de agora que Marília Pêra, 57, pende para o microfone. Em 1975, no musical Feiticeira, ela cantava acompanhada por uma banda na qual davam seus primeiros acordes jovens como Lulu Santos, Ritchie e Lobão. Ali, a atriz mesclava canções populares e dramatizava textos de Clarice Lispector, Jorge Luis Borges e Carlos Castañeda, entre outros.
A personagem da cantora popular finalmente vem à baila em Estrela Tropical, o show, e não o espetáculo musical, tampouco a montagem teatral, que fez curta temporada no Rio de Janeiro e que está em cartaz em São Paulo, no teatro Renaissance, em São Paulo.
O público da atriz ficará surpreso. É a primeira vez em minha carreira que não tenho texto para dizer, com exceção de uma ou outra janela para uma conversa com a platéia. Eu apareço como cantora mesmo, tentando descobrir o meu personagem de cantora popular, afirma Pêra, 57.
Sob direção geral de Antônio Negreiros e direção musical de Roberto Menescal (com quem trabalhou pela última vez há 30 anos, no musical A Úlcera de Ouro) ela interpreta cerca de 30 canções. A seleção, feita por ela e Menescal, pretende-se representativo da canção popular brasileira firmada dos anos 50 para cá.
Vai de Cartola (Acontece) a Tim Maia (Não Quero Dinheiro Só Quero Amar), de Maysa (Ouça) a Leandro e Leonardo (Pensa em Mim). O show é divido em três blocos que podem ser definidos como pop, romântico e Carmem fake, o bis no qual Pêra evoca o espírito solar de Carmem Miranda, cantando três sucessos da pequena notável.
É a forma dissimulada que Estrela Tropical encontrou para não apagar de vez a sua concepção original para evocar a trajetória de Carmem Miranda. Descobriu-se, no entanto, que os direitos artísticos da cantora portuguesa são exclusivos de outra produtora no Brasil. Daí a guinada para a MPB.
Apenas o bis foi cedido, graças a um acordo com os advogados da família. É quando Marília Pêra agita seus balangandãs e solta o vozeirão em Sassaricando (Jota Junior, Oldemar Magalhão e Luis Antônio) e Chiquita Bacana (Braguinha e Alberto Ribeiro).
Por conta dos trâmites autorais, curiosamente configurou-se duas versões do show. A brasileira é a que foi descrita até aqui, com um repertório eclético da MPB e um grand finale em homenagem à mulher que mostrou ao mundo O Que É Que a Baiana Tem.
Lá fora, como já foi mostrado em Portugal, o que se verá é um espetáculo que celebra Carmem Miranda de cabo a rabo. No palco, Marília Pêra acentua o grave na voz, em detrimento do agudo. Para ela, Começaria Tudo Outra Vez, composição de Gonzaguinha, é a canção que lhe exige mais.
Emito um agudo aberto, de peito, sem qualquer empostação lírica, diz ela. Opõe-se, assim, à interpretação de Master Class, solo de quatro anos atrás, quando defendia o papel da soprano Maria Callas.
Seria petulância sonhar em cantar como Elis Regina, Zizi Possi, Gal, Bethânia ou Elba. Não quero atingir a perfeição, afirma. Acompanham-na cinco músicos e dois back vocal.


