Fazer um tributo a um grande ídolo da música é sempre uma faca de dois gumes. Se por um lado a pessoa que faz a homenagem atrai para si os holofotes e tem a chance de explorar grandes sucessos que já fazem parte da memória afetiva dos fãs do homenageado, por outro fica exposta a inevitáveis e cruéis comparações. A cantora baiana Mariene de Castro assumiu esse risco ao aceitar o convite do Canal Brasil para reviver canções imortalizadas por Clara Nunes (1942-1983).
Recém-lançada em CD e DVD pela gravadora Universal Music, a homenagem à cantora mineira não se restringe apenas ao repertório de Clara. No palco do Espaço Tom Jobim, no Rio de Janeiro, Mariene de Castro evoca também o visual afro-brasileiro adotado pela mineira, com direito a adereços e danças que trazem à lembrança dos fãs a imagem forte e reluzente de Clara. No set list do espetáculo, grandes hits como "Morena de Angola", "Feira de Mangaio", "Conto de Areia" e o "Canto das Três Raças", totalizando 21 canções. O show contou ainda com as participações dos cantores Zeca Pagodinho e Diogo Nogueira.
Com sua voz calorosa e uma belíssima presença de cena, Mariene desfila com graça e naturalidade pelas canções de tema afro que fazem parte do universo musical adotado por ela desde que estreou carreira solo em Salvador, em 1997.
A jovem baiana iniciou a carreira fazendo backing vocal para a banda Timbalada. Quando estreou seu primeiro show solo no projeto Pelourinho Dia e Noite, Mariene foi convidada por dois produtores franceses para fazer uma turnê por 20 cidades da França. Aclamada pela crítica internacional, voltou ao Brasil e continuou fazendo temperadas na Bahia.
Apontada como uma das grandes promessas da MPB, em 2004, Mariene ganhou o Prêmio Braskem e teve a oportunidade de gravar seu primeiro CD, "Abre Caminho", que no ano seguinte foi vencedor do Prêmio Tim de Música como melhor disco regional. Em 2007, Mariene gravou a música "Ilha de Maré" para a trilha sonora do filme "Ó Paí, Ó". A cantora lançou o segundo álbum em 2010, "Santo de Casa ao Vivo" e "Tabaroinha", em 2012.
Em entrevista à FOLHA por e-mail, Mariene de Castro fala sobre a homenagem à Clara Nunes enquanto se prepara para sair em turnê pelo Brasil com o novo espetáculo.
Você sempre foi fã de Clara Nunes? Como entrou em contato com a música dela?
Fui ter acesso mais profundamente à obra de Clara após o convite para participar deste projeto. O repertório de Clara Nunes está no inconsciente coletivo do povo, assim como está em minha memória afetiva.

Como surgiu a ideia de fazer esse trabalho em homenagem a ela?
O convite veio através do Vagner Fernandes, autor do livro "Clara, uma Guerreira da Utopia", e do Canal Brasil, que queriam fazer uma série de documentários em homenagem a Clara Nunes. Esse DVD fazia parte dessa série e me convidaram para ser a intérprete.

Quais foram os critérios para a seleção de repertório?
Foi pelo coração. Eu queria mostrar o meu olhar sobre Clara Nunes, que cantou a Bahia e levantou a autoestima do povo brasileiro com seu repertório ensolarado.

Quais são os pontos em comum e divergente entre a sua música e a dela?
Eu sou baiana nordestina, negra, filha de Oxum e canto a minha história, a minha verdade, as minhas raízes. Clara cantava a verdade dela.

Você nasceu onde? E atualmente mora em que cidade?
Nasci em Salvador, Bahia. Moro no Rio de Janeiro desde agosto de 2012.

Quando e como você se descobriu cantora?
Em casa todos cantavam, era uma coisa natural. A minha vida artística começou na dança. Fiz ballet desde pequena e sonhava em ser bailarina. Fui crescendo e a responsabilidade dentro de casa aumentou. Foi quando comecei a estudar música para ter independência. Não demorou muito para que eu virasse cantora profissional. Trabalhar com música transformou a minha vida. Desde então, cuido com esmero de cada passo da minha carreira. Sei exatamente cada detalhe de um espetáculo, pois sempre construí com minhas próprias mãos tudo o que fiz até hoje. São muitos anos de dedicação e entrega.

Canta profissionalmente desde quando?
Meu primeiro show solo foi em 1997, em Salvador.

Como você define sua música?
A minha música é a estória do meu povo cantada, é estória da minha alma, cantadas em verso, prosa, coros e atabaques.

Quais são seus ídolos?
Luiz Gonzaga, Dalva de Oliveira, Gal Costa, Elis Regina, Beth Carvalho e Maria Bethânia.

Quais CDs tem ouvido ultimamente?
Diogo Nogueira ("Ao vivo em Cuba"), Luiz Gonzaga, Vander Lee e Edith Piaf.

O novo show vai sair em turnê pelo país? Já tem a nova agenda?
Estamos planejando levar o show para as principais capitais. Também estamos fechando a estreia no Rio e meu desejo é me apresentar na Quadra da Portela, no Imperator ou em algum espaço para shows na Zona Norte da capital carioca. Mas queremos poder levar esse show para muitas cidades.

Quais são seus próximos projetos?
Vamos seguir com a turnê do show "Tabaroinha", meu projeto autoral. Em paralelo, vamos dar início à turnê do projeto "Ser de Luz".

Serviço:
CD e DVD Ser de Luz
Artista - Mariene de Castro
Gravadora - Universal Music

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