Se é que disse alguma coisa, deve ter sido um seco ''passar bem''. E foi cantar em outro lugar, mais precisamente numa gravadora independente. O rompimento de Maria Bethânia com as multinacionais, onde impôs suas vontades que resultaram em uma das mais significativas e coerentes discografias, aconteceu no ano passado quando comemorava uma data especial, os 35 anos de carreira. As três décadas e meia mereceram um bom disco de estúdio, ''Maricotinha'', lançado pela BMG, sua última gravadora de porte e com a qual, dizem, as relações já estavam estremecidas há tempos. E daí aconteceu o grande zunzunzum no mercado fonográfico de 2001: Bethânia, pertencente ao primeiro escalão da MPB, anunciava a adesão ao casting da novata mas seletiva Biscoito Fino. Outros dois grandes nomes, Gal Costa e Paulinho da Viola, devem seguir o mesmo caminho de Bethânia. É a BMG exercitando as patas.
Pela nova casa, Maria Bethânia está lançando álbum duplo gravado ao vivo o 13º de sua extensa discografia. Embalagem digipack, edição luxuosa. O registro, feito no Direct Tv Hall, em São Paulo, traz 49 faixas exatos 89 minutos e 58 segundos onde intercalam-se canções e poemas, muitos poemas de autores brasileiros e portugueses. Tudo do jeitinho que Bethânia gosta e que o público homologa afinal é no palco, ao vivo e em cores, que se revela a grande atriz. ''A Moça do Sonho'' (Edu Lobo e Chico Buarque) é a canção que conduz a narrativa do espetáculo ''Maricotinha Ao Vivo'', dirigido por Fauzi Arap, o alter ego teatral de Bethânia. Na direção musical, o maestro Jaime Alem, há 20 anos seu homem de confiança. A bem da verdade, na ponta do lápis, são 37 anos de trajetória artística, mas a intérprete baiana optou por comemorar as três décadas e meia de trajetória com atraso.
O repertório traz nomes importantes na discografia de Bethânia Chico, Caetano, Gil, Vinicius de Moraes, Paulo Vanzolini, Sueli Costa, são alguns dos nomes célebres. Alguém há de sentir falta de Roberto e Erasmo Carlos, vitais na formação musical da artista. No espetáculo e no DVD, em fase de lançamento, ''Fera Ferida'' e fragmento de ''Não Quero Ver Você triste'' foram incluídas, mas para o disco Roberto Carlos não liberou. Até agora não houve explicações convincentes.
Para reverenciar sua majestade, Bethânia rebate com ''Nossa Canção'' (Luiz Ayrão), um dos sucessos do chamado rei. E para preencher a provável falta de elegância de Roberto, duas canções foram gravadas em estúdio: ''A Voz de Uma Pessoa Vitoriosa'' (Caetano Veloso - Wally Salomão) e ''Coração Ateu'' (Sueli Costa). Dos novatos e do disco-matriz pinçou Lenine, Chico César, Vanessa da Mata, Ana Carolina e Adriana Calcanhotto. As novidades, se é que podemos assim chamar, são as releituras de ''Todo Amor que Houver Nessa Vida'' (Frejat- Cazuza) e ''Amor de Índio'' (Beto Guedes - Ronaldo Bastos). Pujantes.
Bethânia conduz ''Maricotinha ao Vivo'' muitas vezes de maneira direta, outras subjetivas e outras ainda de forma inesperada. Os poemas reforçam canções, mas têm vida à parte. E a força interpretativa de Bethânia chega a dar lindeza a versos simples, recheados de clichês. É o caso de ''Quando o Próprio Amor Vacila'', de autoria desconhecida aos amantes, palavras exatas e profundas. Há por todo o disco textos selecionados a dedos, extraídos dos sentimentos do universo poético de cantora. Entre os autores escolhidos, Ferreira Gullar, José Vicente, Lya Luft, Natália Correa e, claro, Fernando Pessoa deste último, ''Poema do Menino Jesus'' é o mais longo e proporcionalmente mais tocante.
Por ter invertido algumas palavras, Bethânia se desculpa por escrito e apresenta o poema corretamente da autora portuguesa Sophia de Mello Breyner, no encarte. Acabou por traduzir, involuntariamente, todos os sentimentos que a circundaram até agora: ''Apesar das ruínas e da morte/ Onde sempre acabou cada ilusão/ A força dos meus sonhos é tão forte/ Que de tudo renasce a exaltação/ E nunca as minhas mãos estão vazias''.
Trabalho conceitual. Como todo os espetáculos da intérprete baiana que gosta de registrá-los em disco é ela, sem dúvida nenhuma, a artista brasileira que até agora mais recorreu a esse expediente antes mesmo da banalização. Há releituras de sucessos do passado, mas há generoso espaço também para canções ainda por se consagrarem. Na voz de Bethânia, tudo e todos ganham o mesmo peso e importância. Não há constrangimento nenhum, por exemplo, em Gilson estar cercado pelo poeta português José Vicente ou por Chico Buarque. Aliás, o compositor, de meteórica carreira como cantor popular na década de 70, é quem dá a Bethânia o poderio de transformar duas pedras brutas em diamantes: ''Casinha Branca'' e a bela, romântica e praticamente desconhecida ''Seu jeito de Amar''.
Os 35 anos de trechos percorridos são sinalizados, inclusive, por canções não antes gravadas. Como poucas intérpretes, assim como Elis Regina, Bethânia consegue dar versões perpétuas inclusive em canções alheias a seu repertório. ''O Quereres'' (Caetano Veloso) é o grande e monumental exemplo. ''Sob Medida'' (Chico Buarque) ganha contornos mais marcantes que a versão sensual e antológica de Fafá de Belém, nos áureos tempos.
Há certos questionamentos de caráter histórico. Se ''Ronda'' (Paulo Vanzolini) e ''Negue'' (Adelino Moreira-Enzo Almeida Passos) já receberam releituras outras vezes, por que ''Opinião'' (Zé Keti), que lançou Bethânia para o mundo artístico, recebeu parcos 18 segundos? Se há o resgate de ''Álibi'' (Djavan), música-título do disco de 78 com a qual passou a ser a primeira cantora brasileira a vender um milhão de cópias, por que ao menos não fazer citação de ''Carcará''?
A chegada da menina baiana ao Sul do País, as apresentações em boates de Rio e São Paulo renderam textos próprios. Na verdade, são comentários bem-humorados, como o que fala de uma certa roupa recoberta por ''esmeraldas'' feita pelo costureiro Dener que, na verdade, eram paetês ''vagabundíssimos''.
E assim, entre versos, prosas e canções, Maria Bethânia costura uma multicolorida colcha de retalhos. Sim, ela continua com seu canto forte, sem deslizes vocais audíveis em alguns de seus trabalhos de estúdios ou ao vivo, há anos e anos . A maturidade encorpou a voz, porém não subtraiu o que de melhor há no canto dessa mulher: a arrebatação. Essa dramaticidade transformou Maria Bethânia Vianna Telles Veloso em mito da música brasileira ou diva retro, como preferem os modernos.
As ilusões e tentações do mercado fonográficos não a comovem ela faz seu próprio tempo e a ele são convidados a entrar quem emprestar-lhe atenção. Novas linguagens musicais vêm e vão e ela continua impávida, firme no estilo que a consagrou. Há, no entanto, uma diferença muito grande entre assistir a um de seus espetáculos e ouvi-los reproduzidos em disco no palco está a atriz e no disco, a intérprete; basicamente é isso. ''Maricotinha ao Vivo'' é uma prazerosa viagem. Resta agora à gravadora Biscoito Fino fazer uma distribuição digna para que seja possível o acesso a mais um acerto de sua principal estrela. Ou, em outras palavras, da mais expressiva e incensada intérprete brasileira da atualidade.

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