Marianne Faithfull se apresenta até domingo em SP
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quinta-feira, 09 de dezembro de 1999
Por Antônio Gonçalves Filho 
São Paulo, 09 (AE) - A vida de Marianne Faithfull renderia um daqueles melodramas baratos de Hollywood em que a cantora conhece o apogeu, fica viciada em álcool e drogas, cai na sarjeta, dorme na rua ao lado de mendigos e vende o corpo para comprar heroína. Só que Marianne é inteligente demais para se render a um estereótipo tão vagabundo. Sua vida foi mesmo assim, mas ela não quer explorar esse filão. Diz que tudo isso faz parte do passado e escreveu a autobiografia (Faithfull, 1994
Editora Litte, Brown, 310 págs.) para acabar de vez com perguntas idiotas como "o que você fazia na cama com Mick Jagger?"
A Marianne adulta, aos 52 anos, não é mais aquela groupie que levou tapas no rosto do mesmo Jagger por ter dormido com os outros Stones. É uma cantora e tanto, que os privilegiados vão ouvir de amanhã (10) a domingo, no Sesc Pompéia, em São Paulo. Essa voz grave, marcada por tentativas de suicídio e consumo de drogas pesadas, é uma voz poderosa, que os críticos insistem em comparar com as vozes de Lotte Lenya e Marlene Dietrich. Para reforçar a comparação, ela herdou das duas o repertório.
Gravou um grande sucesso do anjo azul alemão, "Boulevard of Broken Dreams", que não era autobiográfico mas fala de prostitutas de rua, e também "Os Sete Pecados Capitais", de Brecht e Weill, mas não admite que a escolha do repertório seja um revival da era de ouro do musical alemão politizado. "Gravei Kurt Weill porque sou socialista e queria prestar uma homenagem ao compositor", justifica Marianne Faithfull à reportagem, no bar de um hotel, tomando água mineral e fumando como uma chaminé.
Ríspida com o fotógrafo, diz que não vai permitir fotos sem flash e só concede um minuto ao profissional Milton Michida, mesmo assim avisando que não vai posar de jeito nenhum. Essa defesa de gata maltratada pela vida é logo substituída por uma expressão de interesse. Fica feliz por ser lembrada como a Ofélia do "Hamlet" dirigido no cinema por Tony Richardson, há exatamente 30 anos, e não como a amante de Mick Jagger. "Eu sou uma boa atriz, só que os grandes diretores não perceberam isso"
diz, abominando sua estréia no cinema como "A Garota da Motocicleta" (1968), em que abandonava o marido para reencontrar o ex-amante (Alain Delon) e apanhar dele para valer. Garota de couro - Parece claro que o cineasta Jack Cardiff só queria mesmo mostrar o então belo corpinho de Marianne por baixo de suas roupas de couro. Ela tinha apenas 21 anos e Cardiff, que foi um grande fotógrafo de cinema, sabia como despir a moça com sua câmera indiscreta (tanto que há uma versão X-rated do filme chamada "Naked Under Leather", ou seja, Nua Sob o Couro). Marianne odeia o filme.
Pula para a atualidade e revela, em primeira mão, que vai filmar com o diretor francês Patrice Chéreau (Rainha Margot) no próximo ano. O filme, "Intimiste", começa a ser rodado em fevereiro e Marianne vai fazer o papel de uma inconformista. É o máximo que a produção permite revelar, diz. O filme, ela espera, deve inaugurar uma nova fase em sua carreira. Marianne cansou de coisas tristes. Considera o disco "Strange Weather" (1987) "uma pequena obra-prima", mas garante que encerrou a fase "escura" com o recente "Vagabond Ways" (1999), que a Virgin Records não vai lançar no Brasil. Para não frustrar seus fãs brasileiros, promete cantar faixas do novo disco, que tem composições suas (autobiográficas, a considerar uma canção como File it Under Fun from the Past) e de outros autores igualmente pesados como Leonard Cohen.
"Não quero ser tratada pela sociedade como uma depressiva, porque estou viva e livre das de drogas e do álcool há pelo menos 12 anos", diz, convicta da ação positiva das associações anônimas de ajuda aos dependentes. "A mídia quer que eu seja triste e trágica, mas não sou e estou encerrando um ciclo com Vagabond Ways, um dos discos mais conscientes que gravei até hoje", conclui. "A sociedade quer me colocar num compartimento fechado, mas eu resisto". Signos - De fato, quando todos esperavam que ela se transformasse numa nova Lotte Lenya, concorrendo com a alemã Utte Lemper, ela abandonou a promissora carreira teatral de "Os Sete Pecados Capitais" para gravar o pop "Vagabond Ways". "Como disse, fiz a peça como um tributo a Weill e ao socialismo
mas também por abominar o catolicismo", explica Marianne, que mora atualmente em Dublin, na Irlanda do Norte, palco de sangrentos conflitos religiosos. A cantora, criada num convento depois do divórcio dos pais, usa, porém, um crucifixo no pescoço. "É só porque adoro signos", justifica. Marianne brinca e lembra que é descendente do barão Leopold Von Sacher-Masoch, escritor associado com o advento do termo masoquismo por razões óbvias. "Ele era um péssimo escritor e sua "Vênus das Peles" não passa de um caça-níqueis", analisa, impiedosa. "Prefiro ler biografias", revela. É da realidade que ela extrai material para compor e cantar.
"É engraçado que as pessoas me identifiquem como a compositora de The Ballad of Lucy Jordan", comenta, lembrando como a música foi bem utilizada na trilha do demolidor "Montenegro", de Dusan Makavejev. "Deve ser porque sou mesmo boa intérprete", arrisca. "As canções ficam grudadas à minha pele". Ordem burguesa - No caso particular da balada de Lucy Jordan, o refrão da música fala de uma mulher de 37 anos que jamais andará por Paris com um carro esporte e o vento soprando em seus cabelos. O seja, de uma mulher condenada a uma vida burguesa e cheia de regras. Hoje, avó de dois netinhos e mãe de Nicholas, um analista do mercado financeiro, Marianne observa que nem por isso entregou os pontos.
Tem o rosto marcado por rugas esculpidas por sua amarga experiência existencial, as mãos trêmulas e os dedos amarelos de cigarro, mas recusa a moral média. "Tenho extrema simpatia pelas pessoas que dizem não, pelos inconformistas". É para eles que Marianne Faithfull canta estas três noites, oferecendo a seus velhos fãs uma nova versão de seu primeiro sucesso, "As Tears Go By", além "Working Class Hero" e "Stay With Me". Ela vai ser acompanhada por Glenn Patcha (teclados), Courtney Williams (bateria), Chris Thomas (baixo) e Barry Reynolds (guitarra). Serviço - Marianne Faithfull. De amanhã (10) a domingo, às 21 horas. Grátis. Teatro do Sesc Pompéia. Rua Clélia, 93, tel. 3871-7700


