Primeira capital e primeiro bispado de Minas Gerais, Mariana, a 115 quilômetros de Belo Horizonte, cansou de ser coadjuvante da vizinha Ouro Preto e se mobiliza para obter o reconhecimento formal da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) como patrimônio da humanidade. O município, de 311 anos e 52 mil habitantes, passa por um amplo processo de capacitação, principalmente por meio de intervenções urbanas e obras visando a recuperação de seu sítio histórico e adequação às exigências da organização. ''Pretendemos no máximo até abril do ano que vem estarmos com toda a documentação pronta para inscrever a cidade'', disse Fátima Guido, coordenadora em Mariana do Programa Monumenta, do Ministério da Cultura.
Em Minas, além de Ouro Preto, Diamantina, no Vale do Jequitinhonha, também detém o título da Unesco. A antiga Vila Rica - Ouro Preto - foi a primeira cidade brasileira a ser reconhecida como patrimônio mundial, em 1980.
Já a terra de Xica da Silva e Juscelino Kubitschek conquistou o tombamento no final da década de 1990. Em Congonhas, o tombamento restringe-se ao Santuário de Bom Jesus do Matosinhos - que abriga a obra-prima de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.
Embora reconheçam que o Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco hoje é muito mais rigoroso na seleção dos sítios, as autoridades de Mariana confiam nos requisitos da cidade. Além do casario e das seculares igrejas barrocas - possui cerca de 800 imóveis tombados -, ela se destaca por ser guardiã de um dos mais importantes acervos de música antiga colonial brasileira e música sacra manuscrita da América Latina.
Medida considerada fundamental para a obtenção do título, o Plano Diretor de Mariana foi aprovado no final de 2003 e norteia as obras previstas e em execução na cidade. Mas a exemplo de outros municípios históricos mineiros, a regulamentação tardia deu margem a uma ocupação urbana desordenada de suas encostas. O descaso com o patrimônio resultou em populosos bairros periféricos, surgidos a partir de loteamentos e doações de casas, construídas para servirem de ''moeda eleitoral'', observa Fátima.
Na busca pelo título, o prefeito de Mariana, Celso Cota (PMDB), ex-presidente da Associação das Cidades Históricas Mineiras, promete 100% do tratamento de água e esgoto até o final de 2008. A partir do próximo ano, a grade das 32 escolas municipais passará a contar com disciplinas de educação patrimonial e educação ambiental. ''Aí você começa a despertar a preservação'', ressalta Cota. Conforme o Plano Diretor, a cidade deverá crescer de forma planejada para a área norte.
Para recuperar a harmonia urbanística e arquitetônica, a prefeitura encomendou um ousado projeto que prevê, entre outras ações, o desmanche de um enorme ginásio poliesportivo - que destoa em meio à paisagem colonial e dará lugar a um centro de convenções.
Entre outras medidas previstas, estão a instalação de uma rede elétrica subterrânea em pelo menos 80% do centro histórico e a criação de uma entrada turística na cidade, inclusive com intervenções nas fachadas de imóveis particulares. O objetivo é resgatar a característica colonial das moradias. Nos últimos anos, foram restaurados casarões e espaços públicos. Outras obras estão em fase de execução, sendo a mais importante delas a revitalização da praça da Sé, no entorno da catedral da Sé - a mais su© ntuosa igreja da cidade, construída na primeira metade do século 18 e que abriga trabalhos de Aleijadinho e Manoel da Costa Ataíde.

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