Maria Moura chega ao cinema
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segunda-feira, 08 de setembro de 1997
Roberta Jansen Agência Estado 
Arquivo FolhaRaquel de Queiroz: Minha queixa em relação à minissérie é que abusaram do sexo e da violênciaApontado como o melhor romance da escritora Raquel de Queiroz, o livro Memorial de Maria Moura vai virar filme. A produção está orçada em R$ 2,5 milhões e será dirigida pela estreante Leilany Fernandes, que acalenta o sonho de transformar o romance em longa desde que o leu pela primeira vez, em 1992. A saga de Maria Moura, uma brava nordestina que em pleno século XIX lidera um grupo armado de homens no sertão, começará a ser filmada no ano que vem, no Ceará.
A tarefa de transformar o livro de 482 páginas em roteiro foi entregue a Jorge Duran. O trabalho não é simples. Em Memorial de Maria Moura, Raquel de Queiroz muda várias vezes o foco narrativo da história, escrevendo cada capítulo em primeira pessoa sob a perspectiva dos diferentes protagonistas. Além disso, para escrever o romance, a escritora lançou-se em uma cuidadosa pesquisa para reproduzir com fidelidade a maneira de falar no nordeste na época da escravidão. Deu um trabalho desgraçado usar aquela linguagem, conta a escritora.
Raquel deu seu aval para a produção do filme, mas exigiu, contratualmente, que o roteiro fosse submetido a seu crivo. A escritora quer evitar que o filme incorra em equívocos o que, em sua opinião, aconteceu na minissérie levada ao ar em 1994 pela TV Globo. Minha queixa em relação à minissérie é que abusaram do sexo e da violência, afirma Raquel, frisando que, de maneira geral, considerou boa a adaptação. Mas fiz essa restrição porque achei que exageraram; o livro não vai nessa direção.
Memorial de Maria Moura se passa no século passado e conta a história de uma menina de 17 anos que, depois da morte da mãe, passa a ter um relacionamento com o padrasto. Ao perceber que o verdadeiro interesse do padrasto é a sua herança, Moura manda matá-lo. Rechaça à bala os primos que reclamam suas partes nas terras deixadas como herança e embrenha-se pelo sertão com um grupo de capangas. Com o tempo, constrói sua própria fortaleza e torna-se líder de um bando armado especializado em furto e invasão de terras alheias.
Ao escrever o livro, Raquel teve todo o cuidado de evitar dar um tratamento maniqueísta à história e, em especial, a Maria Moura. Ela apresenta seus personagens de forma objetiva, sem nenhuma preocupação de estabelecer fronteiras entre o bem e o mal, nem de criar uma ideologia para justificar o comportamento dos protagonistas. Por isso mesmo, a escritora quer evitar que o filme caia na armadilha que ela soube driblar tão bem no livro.
Não acredito em filme ideológico, por isso quero acompanhar todas as etapas da roteirização, justifica. Raquel garante, entretanto, que, uma vez aprovado o roteiro, não vai interferir nas filmagens. Achei muito boa a sinopse que li, contou. A escritora está confiante no sucesso do filme, entregue a uma diretora estreante. Leilany é muito minha amiga e é completamente apaixonada pelo livro.
Raquel não exagera quando fala da paixão de Leilany por seu romance. Li o livro em apenas uma noite e fiquei totalmente apaixonada, siderada pela história, lembra Leilany, atualmente presidente do Sindicato dos Técnicos Cinematográficos do Rio. A diretora conta que ficou esperando o dia clarear para ligar para Raquel e dizer que gostaria de transformar o livro em filme. De 1992 até hoje, foram horas de conversas, negociações e tentativas de se chegar a um roteiro provisório satisfatório. Quando consegui um roteiro razoável, dei entrada nos papéis necessários para usar a lei do Audiovisual, conta.
O filme encontra-se em fase de captação de recursos. Embora a própria Leilany tenha dado o primeiro tratamento ao roteiro, a tarefa de fazer o script definitivo foi entregue a Jorge Duran, que deverá trabalhar na história pelos próximos três meses. Quero trabalhar com os melhores profissionais, diz. A idéia da diretora é começar a filmar em abril ou setembro do ano que vem. A luz é mais bonita nessas épocas do ano, explica.
Embora tenha dirigido o curta Tempo Quente e trabalhado como assistente de direção em diversas produções, essa é a primeira vez que Leilany estará a frente de um longa-metragem. Quero usar no meu primeiro filme tudo o que aprendi ao longo desses anos, afirma. E quero trabalhar em condições favoráveis para poder fazer o filme com toda a pompa e a circunstância que o livro exige. Por esse motivo, Leilany condicionou o início das filmagens ao término da captação de recursos. Só vou começar quando tiver com todo o dinheiro.
Elenco O elenco do filme ainda não está fechado. Gostaria de trabalhar com alguns atores novos, outros consagrados e, se possível, ter um convidado estrangeiro no elenco. Para o papel principal, está sendo testada a atriz Valéria Alencar, que trabalhou na novela do SBT As Pupilas do Senhor Reitor. Leilany descarta totalmente a possiblidade de convidar a atriz Glória Pires, que interpretou Maria Moura na minissérie da Globo, para encarnar a protagonista no cinema. Embora admire muito o trabalho que ela fez, quero justamente diferenciar o filme da minissérie, criar uma marca própria, explica.
Leilany conta que pretende investir em um aspecto da protagonista que, a seu ver, foi pouco explorado na minissérie televisiva: o lado feminino de Maria Moura. Quero resgatar o conflito dessa mulher que vive cercada de violência, mas não perde o encanto feminino, conta. Quero explorar mais esses conflitos femininos do dia-a-dia de uma mulher sofisticada que vive no meio de um monte de homens rudes.
No que depender do livro, o filme tem tudo para ser um sucesso. Lançado em agosto de 1992, Memorial de Maria Moura foi imediatamente apontado como o melhor trabalho de Raquel de Queiróz. Até hoje, o livro teve nove edições e vendeu 45 mil exemplares - um recorde para os padrões de venda da literatura brasileira. Tomara que o filme fique bom, torce Raquel. De qualquer maneira, nesses casos, o material durável é o livro mesmo; filme, minissérie, teatro, isso tudo é descartável.


