O setor cultural é um dos que mais sofrem os efeitos da crise econômica e política que abala o Brasil. O cenário caótico que incluiu a extinção do MinC (Ministério da Cultura) e a redução drástica de verbas tem provocado o cancelamento de eventos tradicionais e inviabilizado a realização de novas iniciativas. O segmento enfrenta ainda manifestações conservadoras que fizeram acender o sinal de alerta sobre o risco da volta da censura que dominou o País em décadas passadas.

Imagem ilustrativa da imagem Maria Fernanda Coelho: 'A arte se reinventa e não se cala'
| Foto: Marcos Zanutto

Os reflexos da atual conjuntura nacional ecoaram fortemente em Londrina. Um dos exemplos foi o cancelamento da edição comemorativa dos 50 anos do Filo (Festival Internacional de Londrina) que seria realizada em 2018. Por falta de patrocínios, o jubileu de ouro de um dos mais antigos festivais de artes cênicas da América Latina acabou sendo adiado para este ano e teve que sofrer adequações para ser realizado com verbas menores do que em edições anteriores. Artistas também já enfrentaram manifestações contrárias a encenações de dois espetáculos em 2017: uma peça de teatro com Jesus transgênero e uma performance de dança com cenas de nudez.

Para a atriz, diretora teatral e produtora cultural Maria Fernanda Coelho, o teatro atravessa tempos de resistência ao afirmar que “ao contrário do que alguns propagam, nosso povo ama a arte”. “Ela está em nosso DNA. Nós brasileiros somos artistas em nosso cotidiano e é isso que nos torna especiais e resistentes”, destaca.

Atriz do Grupo Proteu - Projeto de Teatro Experimental Universitário, companhia criada por Nitis Jacon que colocou Londrina no cenário nacional das artes cênicas entre os anos 1970 e 1990, Maria Fernanda Coelho colaborou na fundação do Filo e na gestão do evento por 20 anos. Atuou também nos grupos de teatro de Terceira Idade do Sesc e na Companhia Noisette, na Bélgica, onde trabalhou por três anos. Foi chefe da divisão de teatro da UEL (Universidade Estadual de Londrina) e uma das responsáveis pela implantação do Programa Rede Cidadania de Londrina. Atualmente integra a comissão organizadora do Filo.

Qual avaliação a senhora faz do atual cenário político e econômico brasileiro em relação à cultura?

Vivemos um momento muito delicado. Estranho. Por vezes, hostil. A desinformação e, por que não dizer, a demonização das leis de incentivo provocaram uma retração significativa dos investimentos privados. O incentivo do Estado também se retraiu, estatais que tradicionalmente investiam em festivais e atividades artísticas deixaram de investir. Porém, a expressão cultural por si só é resistente. A força está em sua raiz. É uma crise global e infelizmente muito acentuada em nosso País.

A 50ª edição do Filo, que aconteceria em 2018, foi adiada devido a falta de recursos financeiros. Quais prejuízos que o adiamento causou ao evento?

Foi, acima de tudo, uma enorme tristeza, um aniversário sem festa. A cidade sofreu. Nós, como produtores e artistas, sofremos. Também foi um prenúncio dos tempos que estamos vivendo. Por outro lado, nos colocou o desafio da mudança. Mudança de conceito. De formato. Algo que há algum tempo vinha sendo discutido e que com o cancelamento se fez ainda ainda mais urgente.

Tem notícias de outros festivais que passaram pela mesma situação do Filo?

Alguns festivais tiveram cortes em sua programação e a crise do formato dos eventos se tornou ainda mais aguda.

Qual a importância da arte nestes tempos que estamos vivendo?

A arte é a voz que vai seguir ecoando apesar dos tempos difíceis. A arte se reinventa e não se cala. Ao contrário do que alguns propagam, nosso povo ama a arte. Ela está em nosso DNA. Nós brasileiros somos artistas em nosso cotidiano e isso nos torna especiais e resistentes.

Quais foram o erros e acertos do Filo neste meio século de existência?

O Filo sempre foi um organismo vivo. Um ser mutante por natureza. Para mim, seu maior acerto foi sua própria criação por aqueles ativistas culturais universitários inquietos que em consonância com o que acontecia no globo fizeram o primeiro festival universitário. Nitis Jacon é o acerto inquestionável. Ela e nós, com nossa equipe de artistas que se transformaram em produtores e agentes culturais, colocamos Londrina no mapa mundi das artes cênicas. Foi palco para as mais variadas e ricas experiências contemporâneas. Por ser mutante, teve e tem seus momentos de crise. Em algum ponto do caminho deixou de se comunicar com a cidade de maneira orgânica. Vale ressaltar que este não é um fenômeno vivido apenas no Filo. Muitos outros eventos tiveram esse problema. Mas estamos fortes e unidos, abertos ao diálogo, trabalhando de forma colaborativa, em comissão.

O que citaria como características que diferenciam o Filo de outros festivais de teatro do País?

Por ter sido durante muitos anos organizado por um grupo de teatro, o Proteu, e tendo como líder uma pessoa inquieta e genial como Nitis Jacon, o festival não teve nunca o compromisso com o mais fácil e palatável em termos artísticos. Nossa programação sempre foi marcada pela provocação.

Que mudanças estruturais aconteceram recentemente na equipe que organiza o Filo? O que motivou essas alterações?

O Filo precisava se oxigenar. Se abrir. Voltar a ser de todos nós. Em um momento de crise profunda criamos uma comissão para gerir o festival. Uma comissão que tem representantes da UEL, da sociedade. Uma comissão que adora o festival e que entendeu que se não encarasse as mudanças estaria enterrando um patrimônio que, repito, é de todos nós. Um dos pontos que vale destacar é que nossa equipe de apoio técnico e de produção é muito jovem e potente. São estagiários do curso de Artes Cênicas da UEL formados na Divisão de Artes Cênicas que trazem energia e qualidade vibrantes para o Filo.

Como estão projetando a próxima edição do Filo para 2020?

O festival do ano que vem será o resultado das discussões que abrimos agora em 2019. A curadoria ficará a cargo de profissionais que aqui se reuniram no fórum Curando e busca construir, com a contribuição dos nossos artistas, uma programação que dialogue e interfira na vida da cidade. Estamos ainda lançando a ideia de trabalhar em rede com os festivais das diversas linguagens de Londrina.

Haverá retorno de projetos sociais como os Projetos de Maio [cursos voltados a comunidades que têm dificuldade de acesso à produção cultural]?

Sim. Assim como a curadoria, estamos discutindo em conjunto com agentes culturais da cidade esta retomada.

Quais medidas seriam importantes para melhorar o acesso à cultura no Brasil?

A manutenção das leis de incentivo, prêmios e editais é fundamental . São estes mecanismos que proporcionam o acesso, que promovem a riqueza da diversidade.

Como a senhora avalia as recentes manifestações de movimentos conservadores em relação a espetáculos artísticos?

Eu penso que quando a arte é demonizada, mal interpretada por pessoas mal-intencionadas, o risco de haver censura é cada vez mais presente. Porém, acredito na força e na beleza da resistência da poesia, do texto, da dança, das formas e imagens.

Como vê Londrina em relação à arte comparada com outras cidades brasileiras?

Londrina é um enorme celeiro artístico. Terra fértil para criar e receber talentos de todas as áreas artísticas. Londrina é ousada. Londrina é artista!

Como foi sua experiência com teatro fora do País?

Tive um experiência muito interessante na Bélgica, onde montamos um grupo composto por brasileiros. Em um curto espaço de tempos produzimos muito. O que mais me deu alegria foi ter montando “Além Mar”, peça inspirada no livro “Estalagem das Almas”, das talentosas e queridas Karen Debértolis e Fernanda Magalhães. Por meio do nosso coletivo as levamos para Antuérpia, onde além do espetáculo foram realizadas duas exposições das fotos de Fernanda que ilustram o livro. Vivi um período ainda sem tanta xenofobia na Bélgica. Não sei se hoje seria possível fazer o que realizamos lá em termos artísticos sendo estrangeiros.

O que significa o teatro para você?

O teatro me transforma todos os dias. Ele faz de mim uma pessoa mais íntegra e forte. O teatro vibra dentro de mim há tanto tempo...

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