Maria Callas retorna em disco, livro e cinema
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sexta-feira, 08 de janeiro de 2010
João Luiz Sampaio<br> Agência Estado 
Um jornalista escreveu o livro; um produtor já prometeu o filme; e a gravadora lançou o disco. O mito Maria Callas segue bem cotado no mercado da ópera - quando o assunto é resgatar a lendária soprano do século 20, que viveu nos palcos as grandes mulheres da ópera e, na vida real, sofreu com romances e histórias dignas de um libreto, parece não haver limites.
O livro chama-se ''Orgulhosa Demais, Frágil Demais'' (Record, 304 págs., R$ 39), e é uma biografia romanceada da soprano americana de ascendência grega. Seu autor, o jornalista milanês Alfonso Signorini, pesquisou as cartas escritas por Callas ao longo da carreira para recriar sua vida, da infância atribulada ao fim melancólico, passando pelo casamento desfeito, as paixões célebres e, claro, a carreira de sucesso.
O filme, cujo roteiro será baseado no romance, ainda não tem data para estrear - mas, no fim do ano, o produtor Guido de Angelis anunciou a atriz Penélope Cruz como intérprete, nas telas, do papel da diva. Já o álbum duplo da EMI Classics, Callas & Friends, a mostra em gravações ao lado de grandes parceiros, como os tenores Alfredo Kraus, Giuseppe Di Stefano, Nicolai Gedda, o barítono Tito Gobbi e a meio-soprano Fiorenza Cossotto.
Dizer que nenhuma outra soprano gravou - e vendeu - tanto quanto Maria Callas nem começa a explicar o tamanho da importância que ela adquiriu para o público da ópera. Em vida, cantou nos principais teatros do mundo, era disputada por maestros, diretores; recuperou óperas como ''Medeia'' e ''Norma'', então fora do repertório, e reinventou ''Traviata'', ''Butterfly'', ''Tosca'', Aida, enfim, toda a lista das grandes personagens femininas da música lírica; longe do palco, foi garota propaganda de grifes, frequentou o jet set internacional, encantou o cineasta Luchino Visconti, filmou com Pasolini - e viveu o escândalo do caso amoroso com o milionário grego Aristóteles Onassis.
Não demorou muito, após sua morte, em setembro de 1977, para que o mito começasse a ser construído. Seus biógrafos se apressaram em estabelecer paralelos entre vida e obra. De que outra maneira, afinal, seria possível explicar a intensidade que ela exibia no palco? A infância difícil, o início da carreira em cabarés do porto de Atenas, a traição de Onassis, que a trocou por Jacqueline Kennedy... Sua trajetória era digna das heroínas trágicas da ópera.
Contraditória e imprevisível, olhava o mundo com uma mistura de ingenuidade e arrogância. É uma grande personagem, não há dúvida, mas quando é convertida em heroína de ficção perde um pouco de sua humanidade.
É por isso que, muitas vezes, o melhor a se fazer é simplesmente ouvi-la cantar. A voz não é particularmente bonita, mas a riqueza de coloridos e sensações que transmite não tem concorrência até os dias de hoje.


