Maria Teresa Dal Moro
Especial para a Folha 2
Espanto e lágrimas quando em 16 de setembro de 1977, Maria Callas morreu fisicamente. Dezenas de livros, discos e vídeos com registros do seu avassalador talento invandiram o mundo.
Maria Callas é o nome mágico. Nem a maciça promoção em torno de Caruso no começo do século, nem a de Pavarotti no final, se aproximam da vigorosa presença da grande diva grega. Callas era o olho do furacão. Adorada e reverenciada por mestres do teatro, Visconti e Zeffirelli, e diretores musicais como Carlo Maria Giulini e Victor de Sabata, a todos magnetizou com o domínio da arte teatral e do canto, e da estranha voz que era tristeza e alegria, penumbra e luz, montanha e mar, desafiando todas as limitações da voz humana.
No Brasil, Maria Callas tem em Angelo Christiano Rondon Amarante um dos seus devotos mais famosos. Num museu particular, no Rio de Janeiro, que é enriquecido por documentos que chegam dos lugares mais remotos do mundo, Maria impera soberana. Não há referência que não esteja documentada, nesse surpreendende acervo. Os incalculáveis estudos da legendária voz, eletrizam o visitante quando Angelo começa a descrever com gestos de alta precisão musical as diferenças que distanciam Callas da massa do mundo lírico.
Ele descreve sua paixão: ‘‘A primeira vez em que pude ouvir Callas foi na segunda metade dos anos 50, através do rádio. Transmitia a ária ‘‘L’altra notte in fondo al mare’’, de Mefistófeles, de Boito. Fortíssima a impressão inicial. Conhecedor da ária em diversas versões da primeira e última guerra, chamou-me a atenção a individualidade tímbrica daquela voz carregada de emoção, a variedade dinâmica, eloquência e persuasão do fraseado; em suma, aquela ‘marca registrada’ da Callas, que faz com que se julgue estar ouvindo qualquer peça pela primeiríssima vez. Assim despertou a minha paixão callasiana, essa compulsão de conhecer e aprender (porque se aprende Callas) tudo a respeito dela o que, em dada ocasião, no limiar de suas gravações ao vivo, então ‘pirateadas’ de suas triunfantes performances no Scala, levou-me. com um tremendo aperto de cinto no orçamento, a adquirir um pacote de 23 Lps.’’
Hoje, ele possui quarenta livros sobre a Callas, vasta documentação crítica de toda ordem, uma das mais completas discografias existentes no País, além de uma coletânea de CDs e valiosa videografia.
Na linha de um reparo de que entre nós a mídia, em suas resenhas retrospectivas universais sobre o Século XX, deixou de abordar ou o fez sem o devido peso o fato cultural que foi a revitalização moderna do teatro lírico, Angelo argumenta: ‘‘Um dos mais fecundos capítulos dessa histórica revitalização haveria de incidir sobre a chamada ópera-museu e, em particular, sobre o repertório primo-ottocentista, inclusive o primitivo Verdi, que, no acurado dizer do crítico Rodolfo Celletti ‘‘mais que uma revolução vocal, foi uma revolução musicológica, cujo epicentro foi justamente Maria Callas’’.
Ele continua: ‘‘O grande mérito de Visconti não resistiu tanto nos recursos histriônicos que incultou a Callas, mas sim na grande consciência do fenômeno de que se tratava. Aquela voz de outro século, aquele jeito de soprano drammático ‘‘d’agilità’’, capaz de restaurar o repertório neoclássico e primo-romântico, e revivê-lo à luz de uma sensibilidade moderna, é que acendeu o seu imaginário e fê-lo conceber o arcabouço, o engaste teatral em que deveria ser inserida Maria Callas’’.
Angelo Christiano Rondon Amarante, neto do grande brasileiro que foi o Marechal Rondon, explica que as produções operísticas de Visconti, sempre a serviço da Callas, marcaram época na exata medida em que refletiram aquela ‘‘vocalità’’ excepcional. E Callas, por sua vez, inteligente e ambiciosa, se sentiu compelida a se transformar fisicamente à imagem e semelhança do seu específico registro vocal, e brindava o público com a soma do fenômeno vocal e estético. Para ele, ‘‘se Callas não houvesse existido, a ópera no Século XX teria tido que inventá-la’’.
Maria Teresa Dal Moro é crítica de ópera e ballet no Rio de Janeiro.