Roteiro escolhido por Maria Bethânia para o álbum "Noturno" traz um jogo complexo de luz e sombra
Roteiro escolhido por Maria Bethânia para o álbum "Noturno" traz um jogo complexo de luz e sombra | Foto: Lucas Seixas/ Folhapress

Em meio à pandemia, Maria Bethânia entrou em estúdio para traduzir em canções sentimentos antagônicos carregados por grande parte dos brasileiros nestes tempos sombrios. Dor, alegria, esperança e indignação estão presentes no repertório do álbum “Noturno”, lançado pela gravadora Biscoito Fino no último final de semana. Antenada com o seu tempo, aos 75 anos a intérprete baiana manda seus recados através de músicas de compositores que nunca havia gravado como Zeca Veloso, Tim Bernardes e Xande de Pilares, que se unem a autores já habituais em sua voz, entre eles Adriana Calcanhoto, Chico César e Roque Ferreira.

No material que apresenta o novo disco, o poeta Eucanaã Ferraz explica que “Noturno” não significa ausência de luz e que a palavra que dá título ao álbum refere-se à noite – quando, não raro, luzes acendem. Ele destaca que no roteiro construído por Bethânia vivemos com ela um complexo jogo de luz e sombra. A primeira dá cor e forma ao amor, à paz, à amizade e à fé. A segunda imprime contornos ásperos da solidão, da tristeza, do abandono, da traição e do terror.

As dores de amores tão presentes no trabalho da cantora já dão as caras logo na abertura do disco, com “Bar da Noite” (Bidu Reis e Haroldo Barbosa), música da década de 1950 resgatada do repertório de Nora Ney. Nesta faixa Bethânia é acompanhada apenas pelo piano de Zé Manoel, músico maranhense que vem ganhando destaque no cenário nacional também como compositor. Na sequência vem “O sopro do fole”, uma espécie de canção de exílio nordestino composta por Zeca Veloso, filho de Caetano e sobrinho de Bethânia. A devoção, outro pilar da obra da artista, está manifestada em “Lapa Santa”, de Roque Ferreira (autor também de Música Música) e Paulo Dafilin, que assina ainda “De onde eu vim”, mais uma bela ode à Bahia gravada pela cantora. Já Chico César marca presença com “Luminosidade”

Adriana Calcanhoto comparece com duas composições. Uma delas é “Flor desencanada”, a faixa mais romântica do disco. A outra é “Dois de Junho”, que narra cruamente o episódio que resultou na trágica morte do menino Miguel Otávio Santana da Silva, de 5 anos. Ele caiu do 9º andar de um prédio no Recife enquanto estava sob a responsabilidade da patroa de sua mãe, que era empregada doméstica e havia saído para passear com o cachorro da dona da casa.

Bethânia também regravou “Vidalita”, canção flamenca da compositora catalã Maria Teresa Martín Cadierno, num dos raros registros em que a baiana canta em espanhol. Tim Bernardes, faz sua estreia no universo da intérprete com o bolero “Prudência”, música que evoca as canções típicas dos anos 1940. Em dueto com Xande de Pilares, Bethânia cai no samba carioca em “Cria da Comunidade”, música composta pelo convidado em parceria com Sérginho Miriti. O disco é encerrado com a cantora recitando um trecho do poema “Uma pequenina luz”, escrito pelo poeta português Jorge de Sena (1912 – 1978).

“Noturno” foi gravado no segundo semestre de 2020. A direção musical e os arranjos do álbum são do maestro baiano Leiteres Leite, com quem Bethânia já havia trabalhado no álbum “Mangueira - A Menina dos Meus Olhos”. Ele também assinou a direção musical do show “Claros Breus”, com o qual a cantora excursionava antes da chegada da pandemia.

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. | Foto: Divulgação

Serviço:

Álbum - Noturno

Artista - Maria Bethânia

Gravadora – Biscoito Fino

Preço - R$ 50,90