Marcos Valle em fase fértil
PUBLICAÇÃO
domingo, 08 de novembro de 1998
Ranulfo Pedreiro 
Quando chegou para ensaiar Samba de Verão com a orquestra que o acompanharia durante apresentação no programa de Andy Williams, nos Estados Unidos, por volta de 1967, Marcos Valle não se preocupou com o arranjador da versão. Para garantir o sotaque brasileiro, levou um baixista, o Zelão.
Mônica Valle/DivulgaçãoCaetano Veloso é um dos convidados que participam dos CDs que acompanham o songbook de Marcos Valle, ele faz uma boa interpretação de Samba de VerãoO compositor chegou em frente a orquestra e deu de cara com Nelson Riddle - arranjador que trabalhou, entre outros, no songbook de George Gershwin gravado por Ella Fitzgerald. Após uma rápida conversa, Valle explicou que preferia tocar com o baixista brasileiro. Imediatamente, Riddle mandou Ray Brown - um dos melhores no contrabaixo - ceder o lugar a Zelão.
A manobra intimidou o músico brasileiro, que se recusou a substituir a fera americana. Depois de muita diplomacia, Zelão tocou no lugar de Ray Brown, e a apresentação marcou o sucesso de Samba de Verão, um dos melhores momentos da carreira de Valle.
A história é narrada no Songbook Marcos Valle, lançado em disco e livro terça-feira passada no Mistura Fina, em São Paulo, com a presença de vários convidados. O lançamento reúne um livro com textos, fotos, entrevistas e 50 músicas cifradas e partituradas - dez delas para piano - além de dois CDs com músicos de renome da MPB interpretando 26 faixas do compositor.
O livro saiu pela Lumiar Editora, com organização de Almir Chediak, e os CDs pela Lumiar Discos. A novidade marca um momento em que o nome de Marcos Valle é celebrado nas pistas da Europa entre ouvintes de 15 e 25 anos - este sucesso já chegou ao Japão - e também coincide com o lançamento de um disco com músicas inéditas, Nova Bossa Nova, já lançado na Europa e Japão - e que deve chegar essa semana às lojas brasileiras.
Marcos Valle faz parte da segunda geração de compositores da Bossa Nova, como Edu Lobo e Dori Caymmi. Os três, aliás, se apresentaram juntos com o nome de Filhos de Pais Famosos - uma referência aos compositores Fernando Lobo, Dorival Caymmi e ao advogado Eurico Paulo Valle.
Como pianista e compositor, Marcos Valle tinha influências clássicas, das big bands de Tommy Dorsey, Benny Goodman e Glenn Miller, além de música brasileira, representada por Dick Farney, Dolores Duran e Jackson do Pandeiro, entre outros.
Quando estourou com Samba de Verão - que já foi gravado mais de cem vezes - Marcos Valle incluiu novos elementos à bossa nova, inclusive da música negra americana. Com o tempo, o músico partiu para a chamada música de protesto, com Viola Enluarada - gravada ao lado de Milton Nascimento - e depois seguiu uma tendência mais pop, com Capitão de Indústria e Mustang Cor de Sangue, regravadas pelos Paralamas do Sucesso. Suas músicas já fizeram parte do repertório de Sarah Vaughan, Dizzy Gillespie, Joe Pass e Toots Thielemans.
No Brasil, o compositor passou 12 anos sem gravar. Lancei meu último disco em 1986, mas a gravadora fechou após o lançamento, sem fazer a divulgação. Eu resolvi então exercer meu trabalho de compositor e gravar apenas quando surgisse um projeto muito interessante, comenta, em entrevista realizada por telefone.
Em 92 Valle foi descoberto em Londres, mas o músico só ficou sabendo em 94. Meu nome é forte na cena dance, lançaram tudo o que eu tinha feito no Brasil. Fui para a Inglaterra, me apresentei e vi que a receptividade era boa. O disco novo surgiu como uma consequência natural, revela o compositor.
O novo álbum foi produzido com o DJ Joe Davis, um dos responsáveis pelo estouro de Valle na Europa. O CD foi lançado este ano e arrancou elogios da crítica européia. É um trabalho completamente novo, mas dentro das minhas características de misturar bossa, pop e clássico. Eu sempre enveredei por outros caminhos buscando grooves diferentes. Hoje estou mais aberto ainda, misturei esta versatilidade com uma boa dose de instrumental, fiz letras, toquei piano, teclados, violão e fiz os vocais. Fiquei muito feliz com o resultado, confessa.
Enquanto trabalhava no CD, Marcos Valle desenvolveu o projeto do songbook: O Almir já tinha essa idéia há algum tempo, as pessoas cobravam dele. Quando participei do songbook do Tom Jobim e do João Donato, nós colocamos em prática o lançamento.
Desde o bate-papo com Almir Chediak até a masterização, o projeto demorou cerca de dois anos. O próprio Marcos Valle escreveu as partituras das 50 músicas - ele descobriu que podia escrever música ainda na época da bossa nova, com Tom Jobim.
Considero este projeto importante e definitivo na carreira, e tive participação total em todas as etapas, fiz arranjos, masterizei, mixei, e o songbook está com uma receptividade muito boa, assegura o compositor. A idéia inicial era gravar três CDs, mas a dificuldade de reunir tantos convidados fez com que o lançamento fosse reduzido para dois.
O songbook e o Nova Bossa Nova estão saindo praticamente juntos e se completam. Um dos trabalhos é uma coletânea da minha carreira, e o outro é totalmente novo, explica Valle.
Os convidados reunidos para participar dos CDs que compõem o songbook não decepcionam. Samba de Verão, por exemplo, ganhou uma boa interpretação de Caetano Veloso. Nana Caymmi canta Passa por Mim, com categoria. Os discos trazem ainda Gal Costa, com Terra de Ninguém; Maria Bethânia com Eu Preciso Aprender a Ser Só; Chico Buarque interpreta Bloco do Eu-Sozinho e Leny Andrade mostra seus recursos em E Vem o Sol.
Um dos destaques é Johnny Alf, ídolo que virou fã, que com seu estilo personalíssimo gravou Gente. Vale ressaltar ainda a presença de Hermeto Paschoal, em Campina Grande, Erasmo Carlos em Capitão de Indústria e Edu Lobo em Sonho de Maria. Os discos têm também a participação de Ed Motta, Dori Caymmi, Fagner, Elba Ramalho, Paralamas do Sucesso, João Bosco e Eumir Deodato, entre outros. Algumas faixas trazem os arranjos disputados de Cristóvão Bastos, de Roberto Menescal e do próprio Marcos Valle, além da bateria do veterano Wilson das Neves.
O songbook lançado por Marcos Valle com respaldo de Almir Chediak não só resgata a obra do compositor, mas também a dinamiza com gravações e interpretações de qualidade.


