Marcos Magaldi expõe suas "Marcas na Memória" no MIS
São Paulo, 12 (AE) - A série "Marcas na Memória", que Marcos Magaldi expõe a partir de amanhã (13) à noite no Museu da Imagem e do Som (MIS), é uma espécie de registro afetivo que o fotógrafo fez a partir de objetos repletos de carga simbólica que o acompanharam a vida inteira, como a caneta Parker que pertenceu ao "vovô" Chagas, a fruteira art nouveau da "vovó" Antônia, de uma série mais intimista de auto-retratos ou de imagens de forte carga emotiva, como a do túmulo de sua mãe, que leva o título significativo de "O Longo Estranhamento".
A técnica adotada por Magaldi é determinante para reforçar o lado poético dos 16 trabalhos que compõem a exposição. Não se tratam de meras imagens instantâneas resgatadas por um aparelho fotográfico, mas de construções quase pictóricas. As imagens não são apresentadas de forma tradicional
usando o papel como suporte, mas em chapas de alumínio sensibilizadas com emulsão fotográfica que Magaldi foi buscar numa pequena fábrica no interior da França. "Trata-se de um material de extraordinária qualidade, que enxerga coisas que o papel normal é incapaz de reproduzir", explica.
O processo de revelação também é especial e nele são utilizados pincéis, panos, esponjas de mar e outras técnicas manuais que dão a cada trabalho um caráter artesanal e único. "Quem me obriga a fazer uma foto quadrada ou retangular; por que não posso revelar usando um pincel?", pergunta Magaldi. Essa questão é vital em sua produção, pois uma característica constante de sua obra é o esforço em superar cada vez mais os limites da linguagem fotográfica.
Em sua exposição anterior, apresentada no ano retrasado na Li Photogallery, em São Paulo, e este ano em Porto Alegre (com Marcas na Memória), sua abordagem era mais conceitual, procurando dar um certo caráter escultórico à fotografia, que era recortada e remontada tridimensionalmente sobre uma base de madeira por meio de arames. Como um grande número de fotógrafos, Marcos Magaldi divide seu tempo entre a realização de um trabalho profissional em ateliê e a busca de uma forma de expressão pessoal.
Ele se considera um homem de métier, que explora todos os recursos de sua linguagem."Este é um dos meus modos de expressão: posso exprimir-me dizendo coisas pessoais ou coisas mais gerais", explica. Ele começou a trabalhar profissionalmente com a fotografia em 1972 como repórter do Jornal "O Estado de S.Paulo" e do "Jornal da Tarde" e conhece sua profissão a fundo, tendo fotografado de tudo um pouco. Uma questão que ele faz sempre questão de reiterar é a inexistência da suposta impessoalidade e neutralidade da fotografia.
"Todo fotógrafo tem uma atitude diante de um acontecimento; não existe isenção", comenta. "No fundo, acho que a foto é uma comunicação entre duas pessoas e você tem de se expor: revelando sua realidade exterior ou interior". Outro aspecto da profissão que Magaldi costuma analisar criticamente - e vai na contramão da sua necessidade de estabelecer uma obra de autoria - é a existência cada vez mais tênue de uma linguagem pessoal. É difícil atribuir um trabalho a esta ou aquela pessoa quando vivemos em pleno auge dos processos de digitalização das imagens.
"A foto, como nós a entendemos - ou seja, a captação mais ou menos fiel de uma certa realidade -, não existe mais", afirma. Reconhecendo essa característica contemporânea, ele lamenta os excessos e a impessoalidade decorrente da vida própria conquistada pela imagem. "Hoje há um maneirismo um pouco excessivo na manipulação informatizada das imagens: estamos passando pela fase rococó da fotografia", resume ele, lembrando que sempre aconselha seus alunos a "falar de seu universo antes de mimetizar fotos alheias".
Magaldi parece aplicar esse conselho a si. No caso de "Marcas na Memória", há um evidente mergulho em questões íntimas. A série nasceu da observação da velha máquina de escrever que havia pertencido a seu pai, o crítico teatral Sábato Magaldi, dando origem à obra "Top de Linha dos Anos 40". Outro aspecto biográfico se encontra na origem desse trabalho: a proximidade dos 50 anos e uma certa necessidade de fazer um balanço. Segundo ele, essa consciência do tempo é algo curioso. "Nós achamos que vamos ter 25 anos para sempre; num belo dia, acordamos com a barba por fazer, meio branca, e nos damos conta de que o tempo passou". (M.H.) Serviço - "Marcas na Memória" - Marcos Magaldi. De terça a domingo, das 14 às 22 horas. MIS. Avenida Europa, 158, tel. 852-9197. Até 15/8.





