Brigitte Bardot já tinha 15 filmes no currículo, incluindo um considerado clássico ''As Grandes Manobras'', de René Clair e outro divertido ''Meu Filho Nero'', de Steno , quando seu então marido criou o fato. Em 1956, Roger Vadim desnudou sua mulher e a colocou no centro, como a própria razão de ser, do filme que marcou sua estréia na direção. Não foi uma estréia qualquer: ''E Deus Criou a Mulher'' é considerado um dos filmes que anunciaram a nouvelle vague, o movimento de renovação do cinema francês no fim dos anos 1950, que, irradiando-se de Paris, influenciou jovens cineastas em todo o mundo.
''E Deus Criou a Mulher'' projetou as iniciais BB, fez de Brigitte um mito, encarnando a mulher-criança, dotada de uma sensualidade natural que inebria e confunde os homens, provocando muitas vezes a destruição, mesmo que ela não fosse uma vamp.
Vadim fez, em seguida, ''Aconteceu em Veneza'', com Françoise Arnoul, e no terceiro filme, de 1958, voltou a encontrar sua agora ex-mulher. Fizeram ''Les Bijoutiers du Clair de Lune''. O filme foi lançado no País como ''Vingança de Mulher''. Está saindo em DVD, pela Classicline, como ''Ao Cair da Noite''.
Vadim entrou para a história como um grande descobridor de estrelas. Além de Brigitte, casou-se com e ajudou a transformar em mitos eróticos atrizes como Catherine Deneuve e Jane Fonda. A mágica só não funcionou com Annette Stroyberg e não porque ela não fosse igualmente linda. Talvez fosse menos expressiva como atriz, com aquele rosto de gelo, mas servia ao papel de vampira, que representou em ''Rosas de Sangue'' (o título original era mais sugestivo: ''Et Mourir de Plaisir'', ''Morrer de Prazer'').
O cineasta tinha boas idéias no começo de sua carreira. Em ''Aconteceu em Veneza'', mostrou a cidade coberta de neve, ao som do Modern Jazz Quartet. Em ''Ligações Amorosas'', adaptou o romance epistolar de Choderlos de Laclos e fez de Jeanne Moreau uma pérfida (e brilhante) Marquesa de Merteuil, de novo com a música de jazz ao fundo.
Mas já, então, os críticos desconfiavam de que ele não era um verdadeiro autor da nouvelle vague e, a despeito de certas provocações, seu cinema era comercial e antigo, explorando receitas à base de sexo, pois as mulheres que ele sabia escolher eram mesmo esplêndidas. Essa característica, o olho para a beleza feminina, ele nunca perdeu, nem quando resolveu refazer ''E Deus Criou a Mulher'', em Hollywood, em 1987, com Rebecca DeMornay no papel de Brigitte. Foi um fiasco: o filme não era nada erótico e a pobre Rebecca, não por culpa própria, acelerou a débâcle do diretor. No seu ''Dicionário de Cinema'', Jean Tulard já havia vaticinado: ''A obra de Roger Vadim deixa uma impressão de superficialidade, para não dizer de mediocridade''.
Mas persistem certos marcos: ''E Deus Criou a Mulher'', a versão dos anos 1950, ''Barbarella''. ''Les Bijoutiers'' foi recebido a pedradas pelos críticos, na época do lançamento. É uma adaptação de um romance de Albert Vidalie que se passa, originalmente, na província francesa, no século 19. Vadim transportou a ação para Málaga, dando uma ambientação moderna à disputa de amor entre tia e sobrinha que querem o mesmo homem.
Vadim, como bom comerciante da arte, sabia que tinha um atraente produto nas mãos. Ele rasga o vestido de Brigitte para mostrar suas costas, filma-a de biquíni, lança-a no lombo de um jerico e, ao desmontar, faz com que o mito se acocore de uma maneira, digamos sugestiva na época os críticos acharam obscena, mas os critérios comportamentais variam, afinal de contas.
Quem saiu em defesa de Vadim, há 43 anos, foi ninguém menos do que Paulo Emílio Salles Gomes. Mas ele elogiou ''Ao Cair da Noite'' para ir contra ''Ligações Amorosas'', num texto sugestivamente intitulado ''Irresponsabilidade e Política''. Paulo Emílio começa fazendo uma observação interessante. Diz que é possível que o cinema colorido tenha facilitado a tarefa de Vadim em elevar a cama à dignidade poética das campinas. O crítico extasia-se diante dos lençóis que, em ''E Deus Criou a Mulher'', envolvem o casal de amantes, como os heróis antigos enrolavam-se na bandeira da pátria para morrer. A pátria de Vadim, sugeria Paulo Emílio, era o amor ou, mais exatamente, o sexo.
E ele lembrava a tarde de núpcias de ''E Deus Criou a Mulher'' como uma brilhante reintrodução da dimensão erótica dos casamentos. Vale lembrar que, naquela época, por pressão do Código Hays, que disciplinava o uso da violência e do sexo nas produções de Hollywood, os casais tinham de dormir em camas separadas. Com Vadim, a cama era uma só e o sexo adquiria uma dimensão subversiva.
Paulo Emílio considerava ''Ao Cair da Noite'' um filme ''injustiçado''. Encantava-o especialmente a cena do defloramento no filme que agora sai em disco digital. Brigitte prescinde de qualquer preparação burocrática ou litúrgica para entregar-se ao primeiro amante, mas isso não impede Vadim de criar uma sequência linda segundo Paulo Emílio , ao mesmo tempo ''livremente poética e impregnada de religiosidade''. O ponto culminante é o gesto metafórico desse amante, quando planta uma auréola de pétalas na cabeleira de Brigitte.
Até pelos nomes envolvidos na realização de ''Ao Cair da Noite'' e pelo que o filme representava nas respectivas carreiras, há 45 anos , trata-se de um lançamento interessante que a Classicine não se preocupa em tornar mais atraente. O DVD oferece como extra apenas o trailer de cinema. Mas você pode aproveitar e conferir, em vídeo (da LK-Tel), o famoso ''E Deus Criou a Mulher'', que foi o opus primeiro da colaboração artística de Brigitte e Vadim.
Eles trabalharam mais vezes juntos: em 1961, Vadim supervisionou ''Torneio de Amor'', mas o filme, na verdade, é dirigido por Jean Aurel; em 1962, Vadim dirigiu '' O Repouso do Guerreiro'', baseado no romance de Christiane de Rochefort; dez anos mais tarde, a dupla reuniu-se de novo para contar a versão feminina da saga da eterna conquista, em ''Se Don Juan Fosse Mulher''. Nenhum desses filmes fez muito sucesso. A grande fase de ambos foi mesmo nos anos 1950.
SERVIÇO
''Ao Cair da Noite'' (''Les Bijoutiers du Clair de Lune''). DVD da Classicline. Nas lojas.
- ''E Deus Criou a Mulher'' (''Et Dieu Créa la Femme''). Vídeo da LK-Tel. Somente aluguel.

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