O humor de Bertold Brecht, pouco conhecido, é explorado na peça ‘‘A Exceção e a Regra’’, adaptada e dirigida por Marcelo Marchioro, que estréia no dia 12, no Teatro Novelas Curitibanas com o grupo Usina das Artes. O espetáculo comemora o centenário de nascimento do poeta e dramaturgo alemão, Brecht, revelando o lado memos evidente de sua obra.
‘‘A Exceção e a Regra’’ é a continuidade do trabalho já iniciado com ‘‘O Tempo e o Lugar’’, de Botho Strauss, em que as montagens teatrais são acompanhadas de cursos, workshops, palestras, exibição de vídeos e exposições com a finalidade de fornecer mais informações sobre os autores e o fazer teatral, tanto para a classe artística como para o público leigo.
A obra de Brecht permanecerá em cartaz até 20 de dezembro, simultaneamente com outros espetáculos que estão sendo preparados pela companhia.
Atendendo à proposta original do autor, ‘‘A Exceção e a Regra’’ será levada também para os bairros de Curitiba, com encenações nas Ruas da Cidadania.
Muito utilizadas como instrumentos de conscientização durante o período de repressão no Brasil, entre os anos 60 e 70, as peças de Bertold Brecht passam agora por uma releitura à luz da contemporaneidade. Para tanto, a montagem curitibana lança mão de uma linguagem ágil e popular, enfatizando o humor e a ironia, a diversão e a brincadeira, com ritmo e leveza.
‘‘Não estamos corrompendo Brecht’’, garate o diretor Marcelo Marchioro. ‘‘No afã de fazer com que o povo se deparasse com a realidade, suas peças foram utilizadas de uma maneira didática, porém panfletária e carrancuda. Por isso, espalhou-se o conceito de que Brecht é chato. Chatos são os que fazem Brecht, quando não se dão conta de que o caminho mais fácil para atingir o objetivo da conscientização é o riso’’, afirma.
A obra de Brecht encaixa-se na proposta do grupo de encenar autores de várias épocas que forneçam subsídios para uma discussão sobre o fim o século. ‘‘Brecht merecia uma nova leitura neste momento. É preciso ouvir o que sua obra tem a dizer depois da queda do muro de Berlim e sobre a realidade brasileira atual’’, acredita o ator Márcio Mattana. ‘‘Ele é um grande autor, por isso sempre será passível de uma revisão e poderá ser visto em qualquer época. Não fosse assim, não montaríamos Shakespeare’’, compara Marchioro.
Na adaptação, o diretor introduz algumas brincadeiras para garantir a fluência do espetáculo e repassar um texto que comunique, afinal este é o objetivo do teatro de Brecht. Numa das cenas, por exemplo, há uma referência à derrota do Brasil na Copa do Mundo. ‘‘Estamos produzindo um Brecht brasileiro, mas sem perder de vista o lado da conscientização’’, garante.
‘‘A Exceção e a Regra’’, portanto, apesar de ser um texto árido, não está sendo encarado de forma mal-humorada pelos integrantes da Usina das Artes. A peça narra uma viagm pelo deserto, realizada por três pessoas: um comerciante, um guia e um carregador. O comerciante precisa chegar a Urga para fechar um negócio e, para chegar à frente dos concorrentes, trata os dois subordinados como escravos.
A narrativa se detém nas etapas da viagem, passando pela demissão do guia, até a célebre cena em que o carregador oferece o cantil de água e é morto a tiros pelo comerciante. A peça termina com o julgamento do comerciante, absolvido por legítima defesa. Embora o carregador fosse uma exceção, a regra era que um empregado tão maltratado quisesse matar o seu patrão.
Falta de conscientização, de uma postura política perante a vida e a exploração em suas várias facetas, são questões recorrentes em ‘‘A Exceção e a Regra’’. Tal qual as demais peças didáticas do dramaturgo, esta procura deixar evidente o ‘‘distanciamento’’ entre a realidade e a ficção (ou emoção). Para evidenciar essa postura, que constitui a essência da teoria brechtiana, o diretor dispôs de alguns recursos.
Marchioro inclui como prólogo um quadro da ‘‘Peça Didática sobre o Acordo’’, também de Brecht. Deste quadro surgem dois ‘‘clowns’’ (‘‘Karl’’ e ‘‘Valentin’’, numa referência ao humorista alemão Karl Valentin) que depois se tornam narradores e participantes do espetáculo. ‘‘Essas figuras estão lá para lembrar o público de que o que eles estão vendo é uma encenação’’, explica.
Ainda segundo Marchioro, a peça foi buscar na caricatura e na linguagem do cartun os meios para respaldar essa ruptura com o emocional. Entra aí o trabalho da diretora de movimento Sandra Zugman, que orientou os atores na expressão por meio de gestos mais carregados, levados ao exagero. Para tanto, o grupo foi obrigado a assistir, por um bom tempo, desenhos animados, filmes de Mazaropi, Grande Otelo e Oscarito, e mesmo vídeos de Karl Valentin, o humorista que inspirou o próprio Brecht.
Na peça atuam Silvia Monteiro, Léa Albuquerque, Márcio Mattana, Marcos de Góis e Sérgio Pardal. Marchioro assina também a tradução, adaptação e sonoplastia. Os cenários e figurinos são de Cristine Conde e a iluminação de Beto Bruel. ‘‘Fazer uso da caricatura foi um desafio. Não sabíamos se daria certo. Tudo foi possível porque temos um elenco excepcional’’, reconhece Marchioro.
Com o apoio do Instituto Goethe, será montada na casa Vermelha uma exposição inédita, comemorativa do centenário de Brecht. Até o final do ano, a Fundação Cultural e a Usina das Artes produzem mais três espetáculos: ‘‘O Ventre do Minotauro’’ de Dalton Trevisan. ‘‘O que o mordomo viu’’, de Joe Orion, e ‘‘À Grega’’, de Steven Berkiff, esses dois último autores britânicos.A peça ‘‘A Exceção e a Regra’’, dirigida por Marcelo Marchioro, mostra o pouco explorado humor brechtiano
Marcelo AlmeidaO grupo Usina das Artes mostra ‘‘A Exceção e a Regra’’ aos sábados e domingos no Teatro Novelas CuritibanasChatos são
os que fazem
Brecht chato
Grupo assistiu a
filmes de Mazaropi
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