São Paulo, 16 (AE) - Flávia pisou pela primeira vez na passarela vestindo uma saia longa azul, uma peruca prateada de boneca, um bustiê azul bem apertado e segurando uma máscara vienense no rosto. Não conseguia conter o entusiasmo. Nos pick ups, um Roberto Carlos metálico, cheio de guitarras. "Cartas já não adiantam mais/ Quero ouvir a sua voz", cantava o Rei.
"Flávia" é o nome de guerra de um dos 13 travestis da Casa de Detenção de São Paulo que desfilaram hoje a coleção do estilista Marcelo Sommer, no Pavilhão 6 do Carandiru, às 11 horas. A mestre-de-cerimônias, como não podia deixar de ser, foi a ex-chacrete Rita Cadilaque. A platéia, além de cerca de 500 presos, tinha convidados do mundo fashion e correlatos, como a atriz Mariana Lima e o leiloeiro Renato Magalhães Gouvêa, que bateu o martelo - logo após o desfile - para vender 18 telas pintadas pelos próprios presos.
"Estamos aí no ano 2000, o negócio é ser pra frente", disse Rita Cadillac, ovacionada cada vez que se movimentava pelo pequeno palco do pavilhão. Fez seu showzinho de playback e beijou presos, rebolou e mostrou que é a número 1 na Detenção. "Ontem à noite ela jogou a calcinha para os presos", disse Clayton Faria da Silva, de 21 anos, que cumpre pena por assalto a mão armada - só sai do Carandiru em 2004. Define-se como um "piolho", que é o preso que já tem larga experiência em cadeias. "Quem pegar a calcinha está rico", ele diz. "Pode vender ou alugar que não vai faltar comprador."
Rita Cadillac tem total domínio da situação e exerce sua liderança. "Se vocês apoiarem isto aqui, eu volto para rebolar para vocês", diz. "De repente, sai daqui um grande estilista, assim como já saem grandes pintores", disse a vedete.
A coleção de Marcelo Sommer e o desempenho dos travestis na passarela entraria tranquilamente numa lista do mundo fashion como o acontecimento do ano na moda. O que poderia parecer apenas uma apropriação indevida (pelo mundinho) dos códigos do submundo acabou sendo muito mais que isso. Os travestis - as mulheres da cadeia - desfilaram com orgulho e a coleção era exuberante.
Fofão desfilou com um chapéu azul e saia curta plissada com listas vermelhas. Vanessa fez o gênero Rosinha: entrou de vestido de chita e coroa de flores. A Carioca abalou Bangu, para dizer o mínimo: entrou de calça xadrez vermelha, cartola e paletó vermelho com gola xadrez. Rogéria entrou de diabo, com tridente e tudo, mais uma peruca ruiva e um vestido vermelho com abertura lateral canyonesca.
A informalidade de Sommer é apenas aparente. Ele tem tutano. Recuperou algo da ingenuidade do estilo college, como as saias plissadas, mas manteve o tom meio blasfemo e andrógino do fim do século. Preta estava como uma daquelas cheerleaders de torcida, com sainha, meinha e pompons nas mãos. Magrela veio de shortinho e chapéu, botas de caubói e peruca ruiva. Adriana estava com uma meia de bolinha amarelinha, saia de oncinha curtíssima, salto agulha e camiseta. Soweto, de colant preto e saia branca com saiotes sobrepostos por baixo.
Irônico, Sommer encerrou o desfile com o travesti Chica na passarela, vestida de noiva, branco, véu e grinalda. O som era da fase Universo em Desencanto de Tim Maia, Que Beleza, com Sandra de Sá. Grande apoteose. Grande idéia.
A organização da festa foi de Catherine Sophia Bisiliat, que trabalha também no presídio feminino e na Febem. A idéia foi de Waldemar Gonçalves e faz parte de um projeto amplo, chamado Talentos Aprisionados. Cacá Trash e Betto Martins fizeram a maquiagem das tops do presídio. "O desfile está sendo preparado desde março", disse Catherine Sophia Bisiliat, acrescentando que tem também projetos de uma biblioteca e uma padaria-escola dentro do presídio. "É bom ocupar o tempo de vocês de uma forma também cultural", discursou, antes do desfile. Ela disse que não houve custo. "Porque eu sou realmente cara-de-pau, vou e peço", afirmou.
Para finalizar, antes do leilão de Renato Magalhães Gouvêa, os organizadores chamaram para dar uma canja a drag queen Silvete Montilla, estrela na noite de São Paulo. Ela improvisou sobre a letra do samba. "Viver e não ter a vergonha de ser uma drag queen", cantou Silvete.

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