Marcelo D2 tira onda em Curitiba

Show tem a participação das bandas Pavilhão Nove, Raimundos e Nação Zumbi
Chaos/DivulgaçãoMarcelo D2:
‘‘Consegui
colocar no
disco o que
eu pretendia,
fazer um
hip hop com
a cara do Brasil’’
Marcos Freitas

Na certidão de nascimento Marcelo Maldonado Gomes Peixoto, nos palcos e na cabeça da sua legião de fãs ele é Marcelo D2, líder do grupo de rap Planet Hemp. O sangue bom Marcelo D2 está lançando seu primeiro disco solo: ‘‘Eu Tiro É Onda’’. Um projeto que ele vem querendo lançar há mais de dois anos e que agora mostra a seu público. Marcelo D2 vem a Curitiba para fazer um show no sábado, com as bandas Pavilhão Nove, Raimundos e Nação Zumbi.
O disco, com 12 faixas mais uma introdução, traz parcerias de grandes músicos brasileiros, como João Donato e Martinho da Vila. Marcelo D2 conseguiu reunir o hip hop com o sampler de sambistas numa engenhosa e muito boa mistura de gêneros e sons.
Duas músicas serão bem trabalhadas neste disco segundo D2: ‘‘Eu Tiro Onda’’ e ‘‘Baseado em Fatos Normais’’. Vale a pena também prestar atenção em outras duas faixas: ‘‘Samba de Primeira’’ e ‘‘Batucada’’.
Para os fãs do Planet Hemp que pensam que o grupo acabou, D2 dá um recado: ‘‘Daqui três meses vamos voltar aos estúdios para soltar uma bomba’’, conta. O vocalista diz que o terceiro disco da banda será tão bom quanto os dois primeiros, ‘‘Usuário’’ e ‘‘Os Cães Ladram, mas a Caravana Não Passa’’, que juntos venderam mais de 800 mil cópias e resultaram em muita polêmica, que culminou com a prisão dos integrantes da banda por quase uma semana em Brasília, no ano passado.
O líder do Planet Hemp atendeu à Folha pelo telefone, em São Paulo. Estava meio cansado, pois a ida para à capital paulista o fez acordar cedo, logo ele que prefere ficar até as quatro da tarde dormindo.
Nascido em São Cristovão há 30 anos e criado em Madureira, D2 conviveu com a polêmica desde cedo. Com 13 anos, cursava a sexta série do ginásio e foi expulso. Desde então nunca mais frequentou os bancos de escola. Mas como diria o mestre Bezerra da Silva, um dos seus ‘‘manos’’ mais queridos: ‘‘Malandro é malandro e mané é man钒. D2 soube aproveitar bem a cultura das ruas e dos morros cariocas para se tornar uma das cabeças pensantes e voz ativa da periferia e também de outros segmentos da sociedade.
Severo defensor da legalização da maconha, D2 alega que a droga faz mais mal na cabeça dos usuários do que nas favelas. A violência, segundo ele, só existe porque o usuário é considerado um criminoso. ‘‘Se legalizar, a violência pode acabar’’, defende.
Como você está vendo o sucesso de bandas vindas da periferia como é o caso do Planeta Hemp e dos Racionais MCs?
D2 - É um bom momento para a música brasileira principalmente para os músicos vindos da classe mais pobre da sociedade. Os anos 90 têm essa característica bem diferente da década passada, quando a maioria dos músicos e bandas eram oriundos da classe média. De gente que tinha dinheiro para poder comprar bons equipamentos e se relacionar com as grandes gravadoras.
E esse disco solo ? Como é trabalhar com grandes sambistas?
D2 - É muito legal porque essas pessoas são maravilhosas. Me respeitam muito e são excelentes profissionais. Além disso eu sou fã deles desde pequeno. E consegui colocar no disco o que eu pretendia: Fazer um hip hop com a cara do Brasil.
E o nome deste disco o que tem a ver com você?
D2 - Tem tudo a ver, pois neste mundo eu estou mesmo é tirando uma onda. Porque a maioria dos meus amigos, de onde eu vim, ou estão mortos ou estão na cadeia. Eu estou tirando uma onda da vida, pois hoje eu sustento a minha família trabalhando com o que gosto. Quantos neste Brasil, vindos da periferia como eu, conseguem isto?
Você ergueu uma bandeira muito polêmica que é falar sobre as drogas, os pobres e a violência. Defendendo com muito ardor a legalização da maconha você chegou a ser preso e perseguido. Você não se arrepende de ter dado a cara para bater?
D2 - Pelo contrário. Tenho muito orgulho de estar no Planet Hemp. De ter conseguido fazer com que as pessoas pensem nisto. Pensem na droga, na violência que está por trás do tráfico. É muito importante que o Brasil seja cantado assim como os Racionais e o Planet Hemp vêm cantando, dizendo que a violência atinge o preto, o pobre e as putas neste país. Justamente quem não tem voz para denunciar isto.
Você não sente medo de que as autoridades brasileiras consigam, através da Lei, calar a voz do Planet Hemp usando vocês como um ‘‘bode expiatório’’ nesta apologia às drogas?
D2 - Sinto muito medo sim. Nós estamos respondendo a um processo que pode dar de quatro a 12 anos de cadeia para os integrantes do grupo. E o que mais temo é que eles queiram calar a nossa voz como uma represália às outras vozes que estão se levantando a favor desta bandeira.
Para você, qual é o principal problema que o Brasil enfrenta hoje?
D2 - Sem dúvida, é a falta cultura para o povo que vota mal e é iludido. O governo de direita que está no poder no Brasil finge que o País está sob controle e ao mesmo tempo nas ruas eu vejo que o País está uma vergonha. Com fome, violência e a saúde um caos e tudo isto na cara dos políticos. Por isso é que eu acho que falta cultura para este País.
Como você define este momento em sua vida ?
D2 - Estou sossegado. Lançando disco novo, a cabeça ‘‘está a milhão’’, vou começar a gravar uma fita demo com uns camaradas com quem eu toco rap, o Quarteto Fantástico, que é formado por três cariocas e um gaúcho. Estou trabalhando num novo projeto, o selo Positivo. Que tem o objetivo de ajudar crianças portadoras de AIDS. Este selo vai lançar discos e ainda fanzines para angariar dinheiro para os portadores. Com este selo também queremos veicular propagandas que alertem sobre o perigo da doença e também alertando contra o perigo das drogas. Queremos que o Positivo ajude a desmitificar as campanhas de drogas e Aids. Pois o que vemos hoje na mídia são propagandas que tratam o jovem como um imbecil. Não explica direito e tem um preconceito muito grande com os usuários e doentes.
De onde surgiu a idéia de criar este selo?
D2 - Depois da morte de um grande amigo meu e fundador do Planet Hemp, o ‘‘mano’’ Skank, que faleceu vítima de AIDS em 95. A vida dele mudou o rumo dos meus dias. Antes eu era camelô nas ruas do Rio de Janeiro e quando encontrei o Skank a minha vida foi para o outro lado. Hoje faço música e canto o que sinto e vivo. O selo Positivo é uma homenagem a ele e também uma contribuição do meu trabalho e também de outras pessoas que vão abraçar esta causa contra a AIDS.
E este show que você fará em Curitiba com o Pavilhão Nove, Raimundos e
Nação Zumbi?
D2 - É muito legal pois vou encontrar uma moçada que gosto muito e ainda vou poder apresentar um pouco do meu novo trabalho para os paranaenses. No show, vou tocar com o Nação Zumbi a música ‘‘Malungo’’, que é uma homenagem nossa ao Chico Science e acho que vai ser bem legar.
• Eu Tiro é Onda - disco solo de Marcelo D2 pelo selo Chaos, da Sony Music. Preço médio: R$ 18,00. Show com Pavilhão Nove, Nação Zumbi, Raimundos e Marcelo D2. Sábado, às 21h30, no Marumby Expocenter, em Curitiba. Ingressos antecipados a R$ 10,00. Informações: (041) 333 1221.

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