Marcado na memória
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de setembro de 2010
Arcângela Mota<br> TV Press 
Emiliano Queiroz revela uma memória afiada quando se trata de sua trajetória televisiva. Aos 74 anos de idade, 50 deles dedicados à tevê, o ator cearense não esquece um nome nem confunde datas ao contar histórias das últimas cinco décadas, nas quais foi personagem e testemunha do crescimento da televisão no Brasil.
E é com a mesma exatidão que ele relembra os bastidores de seus trabalhos desde a época em que ajudou a inaugurar a TV Ceará, em 1960, até as passagens pela TV Tupi, TV Cultura e TV Paulista antes de ser contratado pela Globo, em 1965, quando a emissora foi criada. Atualmente no ar como o italiano Nonno Benedetto de ''Passione'', Emiliano se diverte ao lembrar a fascinação que sentiu ao perceber, pela primeira vez, o impacto do veículo. ''Quando comecei minha carreira de ator, tevê era uma coisa meio bizarra. Algo como o rádio com uma telinha. Só fui entender a dimensão depois que vi um 'outdoor' na rua com uma foto minha enorme'', recorda, aos risos, referindo-se à propaganda da novela ''Eu Amo Esse Homem'', que protagonizou na TV Paulista em 1964.
E foi graças ao sucesso da novela que Emiliano foi para a Globo no ano seguinte, quando a TV Paulista foi comprada pela recém-fundada emissora de Roberto Marinho. O folhetim ''Eu Amo Esse Homem'', que ainda não havia chegado ao fim, passou a ser realizado na Globo, até que foi proibido pela censura durante a ditadura militar. ''Meu personagem era apaixonado pela mãe e os militares acharam isso muito pesado. Cancelaram a novela no meio'', conta o ator, que viveu personagens emblemáticos ao longo dos 45 anos na Globo, como o Juca Cipó de ''Irmãos Coragem'' e o Dirceu Borboleta de ''O Bem-Amado''.
Mas a segurança para encarar os trabalhos no Rio de Janeiro veio com a experiência de três anos na TV Ceará, que Emiliano ajudou a inaugurar e onde foi ator, escritor, diretor e apresentador. ''Era tudo ao vivo, trabalhei feito um louco, mas foi um Eldorado. Esses três anos me trouxeram uma rapidez de raciocínio e cheguei muito bem preparado ao Sudeste'', analisa.
Apesar de já ter essa experiência, Emiliano viveu um dos momentos mais emblemáticos de sua carreira quando foi convidado pela autora cubana Glória Magadan a escrever a novela ''Anastácia, A Mulher Sem Destino'', em 1967, sob a supervisão dela. O folhetim, que apresentou graves problemas de audiência, é famoso pela maneira inusitada com que os rumos da história foram mudados: a maioria dos personagens foi morta em um imprevisto terremoto, para que a trama fosse reformulada.
''A Glória me jogou aos leões. Me convenceu a escrever a novela e, quando começou a dar errado, abandonou o barco. Nunca quis escrever aquilo'', desabafa o ator, que sugeriu à direção da Globo que a escritora Janete Clair o ajudasse a terminar a história. ''Resolvemos matar quase todo mundo em um terremoto e recomeçar. Fiquei amigo para o resto da vida da Janete, mas nunca mais falei com a Glória. Foi o início do declínio dela na Globo'', recorda o ator, que nunca mais escreveu para a tevê desde então. Mas continuou a escrever para o teatro.
Cinco anos mais tarde, Emiliano teve a chance de viver seu personagem mais marcante, o tímido Dirceu Borboleta em ''O Bem-Amado'', de Dias Gomes, primeira novela em cores da tevê brasileira. ''Descobri que poderia ficar vermelho na televisão e comecei a tirar partido disso. O Paulo Gracindo aproveitava para soltar um caco: 'Você está vermelho como um peru''', relembra.
Apesar do sucesso de Dirceu, Emiliano destaca que, quando a novela chegou o fim, recebeu com surpresa a notícia de que seu contrato não seria renovado com a Globo, pela primeira vez. ''Quando me chamaram, pensei que iria receber um aumento e ganhei uma demissão. Depois a novela foi reprisada e eu estava popularíssimo na rua, mas com o bolso apertado'', diverte-se o ator, que ainda teve a chance de reviver o famoso Dirceu Borboleta no seriado ''O Bem-Amado'' e na ''Escolinha do Professor Raimundo''. ''Foi o personagem que mais me abriu espaço. Poucos atores fazem papéis que, 40 anos depois, ainda são lembrados'', orgulha-se.


