São Paulo, 05 (AE) - De repente, Cuba. Depois do guitarrista Ry Cooder (que ajudou a recolocar na ordem do dia no mundo todo a boa música cubana), outro guitarrista americano se debruça sobre o legado da "swinging" Cuba dos anos 40 e 50. Trata-se de Marc Ribot e seu grupo "Los Cubanos Postizos", que vêm ao Free Jazz festejando a música de Arsenio Rodrigues. Ribot e seu grupo se apresentam no dia 15 de outubro no Jockey Club de São Paulo. Tende a ser a noite da festa.
Os dois são bons guitarristas e americanos, Cooder e Ribot. É razoável o interesse de Cooder pela música de origem africana, da linguagem do blues (que ele domina) às viagens com os cubanos e africanos, como Ali Farka. Mas, desta vez, trata-se de um olhar absolutamente insólito. Ribot - que acaba de lançar o disco que leva o nome do grupo - é um vanguardista, ás de ouro das bandas de John Zorn e John Lurie, parceiro de Madeleine Peyroux, guitarrista preferido de Tricky, Elvis Costello e Tom Waits. É um experimentalista, um dos mais respeitados em seu instrumento.
O fato de ter-se colocado à disposição da música cubana prometia um encontro no mínimo insólito - para não dizer bizarro. Não foi. Ribot foi reverente, sem ser subserviente. Contaminado pelo "vírus cubano", mostrou o espírito de um desbravador. Todas as músicas foram compostas ou eram do repertório do maestro cubano Arsenio Rodrigues, um célebre band leader dos anos 50, cego, que morreu em 1972. Uma delas é do próprio Ribot (Postizo).
Abre o disco a bela e melancólica balada "Aurora en Pekín" (de Alfredo Boloña), imbuída daquele espírito internacional da música cubana dos anos 40. Ribot emenda uma sequência de riffs minimalistas em "Como Se Goza en El Barrio". O piano e as guitarras mariachi revivem uma atmosfera que se fundem com o som de uma banda de boate - contagiante, mas não exatamente festeira. A guitarra chora copiosamente. Com "Postizo", composição de Ribot, as congas e o atabaque preguiçoso são atacados por uma guitarra mais virulenta.
O prazer de Ribot em destrinchar os solos, originalmente acariciados pelo tres (espécie de violão) cubano, é evidente. Ele é rápido em fazer a distinção. "Não se trata de uma banda de Cuba (ou um êmulo de um grupo cubano), mas de um grupo de Nova York divertindo-se em tocar música cubana". Na faixa 5, "No Me Llores Más", Ribot está empenhado em trazer à cena os duelos vocais - notem bem: não quer cantar música cubana, mas refazer o percurso do son cubano. O teclado que sua banda usa dá um tom nostálgico ao som, ao mesmo tempo que não imita um piano cubano como o de Rúben Rodriguez ou Bola de Nieve - não daria certo mesmo macaquear tão respeitáveis mestres.
E quem toca o órgão, em algumas faixas (como Postizo)? É John Medeski, curiosamente o líder de outra boa atração do Free Jazz. Tanto Medeski quanto Ribot têm uma boa relação com aquela música brasileira que invadiu durante um determinado período os clubes de Nova York (e está lá até hoje, transmutada), que ia de Sérgio Mendes a Ivan Lins. Marc Ribot é um guitarrista controverso, que deve levar hordas de guitarristas ao Jockey. Toca uma Gibson ES225 e a Gibson acústica de 12 cordas com pick up DeArmond. Não toca três durante seu show, não tem a ousadia. Mas é uma fera.
Como Chris Isaak, foi cooptado inicialmente pela guitarra havaiana, e essa sonoridade perpassa inclusive sua viagem cubana - assim como já havia tocado a homenagem que dedicou a Thelonious Monk, em 1996. Como uma banda incidental, "Los Cubanos Postizos" podem se dar ao luxo de ter gente de peso nas suas linhas. Além de Ribot e Medeski, tocam Brad Jones (baixo), EJ Rodriguez (percussão) e Robert Rodriguez (bateria). Medeski reveza-se com Anthony Coleman nos teclados e o irmão de Marc Ribot, Gregory, toca sax barítono (é ele quem cozinha todos os metais do disco).

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