Barra Grande - ''Aqui, estamos na era do 'molecular', conhece?'', pergunta uma mulher de pele morena, cabelos negros e sotaque acentuado. ''É aquela em que você pede para o moleque ir lá, levar o recado.'' Nativa de Barra Grande, na Península de Maraú, Bahia, dona Zeni esbanja simpatia ao falar da região e traduz com bom humor a realidade em que vive.
Está certo que não é em toda parte que os celulares têm sinal. Aliás, diz-se que só se consegue usar o aparelho do alto do Morro Bela Vista, por essa razão mais conhecido como ''Morro do Celular''. Mas, exageros à parte, a Península de Maraú preserva uma aura de isolamento que tem sido seu maior trunfo na captação de turistas. E, na linha ''lugares afastados da civilização'', ganha destaque com hospedagens tão sofisticadas quanto um resort à beira-mar e tão alternativas quanto um camping.
Verdade seja dita, a abertura do Kiaroa Beach Resort incluiu de vez a Península de Maraú no mapa turístico da Bahia. Antes dele, pouco se falava na região, situada na Costa do Dendê, a cerca de 460 quilômetros ao sul de Salvador. Fica entre a Ilha de Boipeba e Itacaré, destinos que carregam com justiça o rótulo de paraísos tropicais.
E com o despontar do potencial turístico vieram os investimentos em infra-estrutura. Hoje, calcula-se que existam cerca de 45 meios de hospedagem na Península, que já conta com acesso à internet, via satélite, a R$ 0,30 o minuto. Os restaurantes e passeios oferecidos pelas agências de turismo locais em nada decepcionam os turistas. Ao contrário, a expansão dos serviços têm contribuído para atrair cada vez mais visitantes.
O difícil acesso acaba ajudando na manutenção dos encantos naturais nativos. A maneira mais fácil de se chegar a Barra Grande é a via aérea, rota charter inaugurada graças ao resort. Em vôo panorâmico de 35 minutos, a partir de Salvador, vislumbra-se uma sequência de praias e de verde que parece interminável.
De carro, o acesso é mais complicado. A partir de Itacaré, deve-se seguir pela BR-030, rodovia projetada para ligar Brasília ao mar. O projeto de se fazer um porto para a Capital Federal nunca saiu do papel e a estrada foi esquecida. Na época de chuvas, de maio a agosto, vira uma lama só. Apenas veículos com tração reforçada dão conta de vencer o trajeto. A melhor saída é tomar um barco a partir de Camamu.
Qualquer que seja o meio escolhido para chegar à Península, o prêmio vem em cerca de 40 quilômetros de praias, cachoeiras e muitas lagoas. Apesar dessas informações deixarem inquietos os adeptos da natureza, nesse pedaço de terra espremido entre o Atlântico e a Baía de Camamu, é bom lembrar, são as fases da Lua e o movimento das marés que determinam o ritmo de vida.
Assim, não adianta apressar-se em conhecer a Praia de Taipus de Fora, por exemplo. Para valer a pena, a maré tem de permitir que os recifes de corais formem piscinas de água translúcida. Bastam máscara e snorkel para explorar suas belezas. Mas todo cuidado parece pouco para não agredir os recifes. De tão frágeis, podem morrer num simples toque.
Taipus de Fora é um ótimo cartão-postal. Mas há mais. As ilhas da Baía de Camamu com destaque para a da Pedra Furada , o nascimento da Lua Cheia, a Cachoeira Tremembé, a Lagoa do Cassange, a Lagoa Azul, os mirantes... Às vezes é difícil acreditar que existam lugares assim.
A propósito, há uma lenda que tenta explicar os encantos da Península. Teriam sido criados por um índio apaixonado, de nome Maraú. Para conquistar o coração de Saquaíra, sua amada, teria ele inventado as piscinas naturais, as lagoas, os mirantes e toda a exuberância natural da região transformada em Área de Proteção Ambiental (APA) em 1997.
Nem com tanto esmero, porém, Maraú conseguiu amolecer o coração da moça. Caprichosa, fingiu que não viu o que lhe era dedicado. Ainda assim, ela preferiu fugir, deixando para trás o desolado Maraú (cujo pranto segue inundando até hoje parte da região) e a beleza sem igual da Península que adotou o nome do índio rejeitado.
Viagem feita a convite do Kiaroa Beach Resort.

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