As esporádicas visitas do londrinense Mário Bortolotto à sua cidade natal consistem quase sempre de concorridas maratonas artísticas, tal a profusão de atividades para as quais é convidado a participar. Tem sido assim desde que se mudou para São Paulo, em 1996, onde foi reconhecido como um dos principais nomes da nova dramaturgia brasileira.
Neste sábado, ele vem comemorar os três anos da Vila Cultural Cemitério de Automóveis participando de uma intensa programação que inclui lançamento de seu livro de poemas ''Um Bom Lugar pra Morrer'' e show de sua banda Saco de Ratos Blues com discotecagem (pilotada por ele) na sequência. No meio da agenda ele ainda assiste à estreia da peça ''Felizes para Sempre'', de sua autoria e montada por um grupo de atores locais sob direção de Sergio Mello.
O livro ''Um Bom Lugar pra Morrer'' é seu segundo volume de poesias - o primeiro foi ''Para os Inocentes que ficaram em Casa''. Chega às prateleiras pelas editoras londrinenses Atrito Art Editorial e E-lectra & Kan. O livro reúne versos escritos entre 2007 e 2010, todos marcados pela oralidade e por um estilo de construção de imagens que remete à geração beatnik e a autores a ela filiados como Charles Bukowski, influências presentes também em seu trabalho teatral.
A narração de pequenas histórias em forma de poemas, uma das características mais acentuadas do autor, é lembrada no texto de apresentação de Marcos Losnak para quem Bortolotto cria um território ''onde as mais variadas figuras procuram o travesseiro ideal, aquele em que possam encostar a cabeça no meio da tempestade''.
À frente da banda Saco de Ratos Blues, o artista desenvolve seu lado de cantor e compositor. O grupo foi criado há três anos para tocar canções autorais, de amigos e de compositores como Itamar Assumpção e Cazuza. Além de Bortolotto, a formação traz Fábio Brum (guitarra), Marcelo Watanabe (guitarra), Fábio Pagotto (baixo) e Rick Vecchioni (bateria).
A peça ''Felizes para Sempre'', por sua vez, é uma das quatro obras do autor que serão montadas e apresentadas até o final desse ano com elenco totalmente londrinense e com produção da Vila Cultural Cemitério de Automóveis. As outras peças são ''Diário das Crianças do Velho Quarteirão'', ''Gravidade Zero'' e ''Medusa de Rayban''.
Esta última terá direção de Paulo de Moraes, da Cia Armazém de Teatro, sediada no Rio de Janeiro. Esse trabalho reunirá pela primeira vez numa mesma montagem os dois homens de teatro - Bortolotto e Moraes - que mais se projetaram em escala nacional depois de iniciarem a carreira em Londrina. Sergio Mello e André Martins dirigirão os outros espetáculos.
Bortolotto ainda se recupera do incidente em que levou três tiros de um assaltante em São Paulo. Mas, oito meses depois, tem trabalhado em diversas frentes simultaneamente. Atualmente dirige a peça ''Tape'', de autoria de Stephen Belber e que está em cartaz na capital paulista. Paralelamente, cumpre temporada em Brasília (DF) com o espetáculo ''Êxtase'', além de ensaiar e preparar a programação da ''V Mostra Cemitério de Automóveis'', que começa dia 03 de setembro no Centro Cultural São Paulo.
Serviço
- Lançamento e sessão de autógrafos do livro de poesia Um bom lugar pra MorrerQuando - Hoje, 14h
Onde - Sebo Capricho (Rua Mato Grosso, 211)
Quanto - R$ 25
- Espetáculo Felizes para Sempre
Quando - Hoje, 20h30
Onde - Vila Cultural Cemitério de Automóveis (Rua João Pessoa, 103-A)
Quanto - R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia)
- Show das bandas Saco de Ratos Blues e Bemol Blues Band e discotecagem de Mário Bortolotto
Quando - Hoje, 23h
Onde - Vila Cultural Cemitério de Automóveis (Rua João Pessoa, 103-A)
Quanto - R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)




TÃO CERTO QUANTO UM DESASTRE

Não espere que eu passe a andar do lado da lei
Que tenha escrúpulos ao ver você chorar
Que eu vá embora cedo do bar
Não espere que eu remova a neve do seu jardim
Que tire as ervilhas do seu sanduíche
Que segure sua mão quando você estiver com medo
Que beije seus pés no inverno
e que lave atrás de suas orelhas no verão
e que a leve pra estalar os dedos num clube de jazz
Não espere que eu leve seu cachorrinho fresco pra passear
Não espere que eu chame um táxi quando você tiver suas
primeiras contrações
Não espere que eu venda minhas histórias em quadrinhos
pra comprar suas fraldas de bebê
Não espere ver minhas tripas vomitadas no
(vaso do banheiro
Nunca permiti tamanha intimidade
Não espere que eu te leve pra longe da tempestade
Que eu nine o seu filho indesejado
Eu vou cortar o pescoço do palhaço que pulou da caixa
Não espere que eu esteja ao seu lado quando você dormir
Não espere que eu entenda suas crises de tpm
E nem sua degradante necessidade de carinho
De minha parte, eu só espero um milagre

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