Maracatu de baque ‘polaco’
Pesquisadora pernambucana tenta ensinar os segredos do maracatu aos curitibanos participantes da Oficina de MPB
Fotos de Lenadro TaquesA professora de folclore pernambucano Maria Cristina Barboza desenvolve uma pesquisa pela Universidade Federal de Pernambuco sobre ‘‘Toadas e Baques de Uma Folia Pernambucana de Rei Coroado’’
Elisa Marilia Carneiro
Ao primeiro baque do surdo, Curitiba se transformará em nação Nagô. Rei, rainha, caterinas, embaixador e embaixatriz exibem suas roupas coloridas, saias rodadas e turbantes para apresentar o desfile de Maracatu de Baque Virado, ‘‘Maracatu Pinheiro Brilhante’’, amanhã às 20h30 no Memorial de Curitiba, dentro da programação da 7ª Oficina de MPB, promovida pela Fundação Cultural de Curitiba.
Para não perder tempo e mostrar o maracatu como deve ser, a professora de folclore pernambucano Maria Cristina Barboza, trouxe as vestimentas de Pernambuco, feitas pelo artista plástico e carnavalesco João Neto. ‘‘Os paranaenses pegam o jeito rápido, mas fica faltando o swing pernambucano. Isso só com muito tempo de prática’’, reconhece.
‘‘De qualquer forma, os paranaenses, talvez por não cultivarem muitas manifestações folclóricas, têm sede de conhecimento e se interessam pela cultura nordestina como se fosse a deles. No Maracatu de Baque Virado há espaço para a improvisação e isso torna o trabalho ainda mais interessante.
‘‘Os paranaenses pegam o jeito rápido, mas fica faltando o swing pernambucano. Isso só com muito tempo de prática’’, afirma Maria CristinaOutro fato bastante peculiar é o poder de união entre as culturas, que pode ser notado até no nome dado ao maracatu da oficina, ‘‘Maracatu Pinheiro Brilhante’’: misturou-se o pinheiro, árvore símbolo do Paraná, com parte do nome do maracatu Nação Estrela Brilhante, o mais tradicional de Pernambuco’’, reforça.
Para a dançarina gaúcha, mas que vive em Boston, Fernanda Mello, representando a Dama do Paço - personagem responsável pela calunga (boneca) -, a oficina foi interessante por ter abordado o maracatu mais profundamente. ‘‘Agora vou levar tudo isso para os Estados Unidos, onde pretendo montar shows de folclore brasileiro’’, conta.
Na opinião do professor de Educação Física, no personagem do rei do maracatu Nilton Rodrigues, a maior dificuldade nos ensaios foi acertar o ritmo dos surdos. ‘‘Os folguedos da cultura afro-brasileira são elementos constituintes da raça brasileira da mesma forma que os europeus e os índios. Para nós sulistas é um pouco mais difícil, mas a gente pega o ritmo’’, diz.
A dançarina gaúcha Fernanda Mello, representando a Dama do Paço - personagem responsável pela calunga (boneca)O maracatu é um folguedo baseado no candomblé. Veio com os negros escravisados do Congo, onde eram reis e rainhas. Aqui, o maracatu era permitido pelos brancos donos de engenhos e pela igreja, que julgavam a permissão da representação cultural, uma forma de domínio sobre os escravos.
Os brancos davam as roupas, que nada tinham a ver com a dança africana. ‘‘Eram roupas européias, e assim a corte portuguesa se divertia à custa dos escravos’’, conta Maria Cristina. O maracatu ficou, até meados do século passado, restrito aos descendentes de escravos. ‘‘Hoje, é aberto a todos que queiram se interar das nossas raízes, independente de qualquer religião’’, ressalta Maria Cristina.
A pesquisadora desenvolve uma pesquisa pela Universidade Federal de Pernambuco sobre ‘‘Toadas e Baques de Uma Folia Pernambucana de Rei Coroado’’. Com verba do CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa), o trabalho tem por objetivo analisar o contexto histórico-musical do Maracatu Nação Estrela Brilhante, o mais tradicional do Recife e que foi criado em 1906. Parte dessa pesquisa foi aproveitada nos cursos ministrados por Maria Cristina, na Oficina de MPB.
7ª Oficina de MPB. Apresentação do ‘‘Maracatu Brilhante’’, Maracatu de Baque Virado. Desfile pelo Largo da Ordem, seguido de apresentação, hoje, às 20h30, no Memorial de Curitiba.

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