Máquina da morte
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
Marcos Losnak <br>Especial para a Folha2 
O que leva um homem a criar uma arma capaz de matar outros homens? O que se passa na cabeça desse sujeito que desenvolve um instrumento cujo objetivo é assassinar homens com a maior eficiência possível?
O leitor que procurar respostas para estas questões em ''AK-47'', obra do jornalista Larry Kahaner que está sendo lançado pela editora Record, vai encontrar um resposta curiosa: nada. Mikhail Kalashnikov, o russo inventor do fuzil automático AK-47, não tinha nada cabeça a não ser medo quando teve o ímpeto de desenvolver a arma.
Kalashnikov nasceu em 1919, filho de humildes agricultores. Foi recrutado pelo Exército Vermelho em 1938 atuando como mecânico de carros de combate. Na batalha contra o exército alemão durante a Segunda Guerra, foi gravemente ferido e um dos poucos de seu batalhão a sobreviver.
Essa experiência deixou uma mancha de medo em sua mente. Ficou paranóico diante das armas automáticas do exército alemão. Obstinado, persistente e chato, passou a desenvolver projeto de armas mais eficientes. Em 1947 surgiu a AK, que se tornaria o fuzil mais usado no mundo.
AK-47 (abreviatura de 'Avtomat Kalashnikov 1947') superou todas outras armas concorrentes, por razões simples. Possuia poucas partes móveis e nunca emperrava. Não exigia manutenção. Era resiste à poeira, areia, água, lama, queda, choque e o que viesse pela frente. E podia ser utilizada por qualquer imbecil de um neurônio e meio. Com meio minuto de instrução o sujeito pode sair capacitado, matando o que encontrar pela frente.
A estimativa é de que existam 100 milhões de AK-47 espalhados pelo mundo. E que entre 100 e 150 mil indivíduos por ano são enterradas vítimas de suas balas. A maioria dos exércitos oficiais do planeta a utilizam. Todas as milícias mundo afora fazem uso dela. Mais do que isso, ela se tornou um ícone rebelde. Está nas canções dos rappers, em obras de arte pop, na bandeira de Moçambique, na moeda de alguns países africanos, nas mãos de traficantes, dos terroristas e de um amplo leque de malucos violentos.
Em ''KA-47'', Larry Kahaner não realiza uma história propriamente dita da arma mais famosa do mundo, mas uma reportagem sobre sua trajetória - militar, ideológica, econômica e política - ao longo das décadas. Em especial seu papel nas guerras do Vietnã, do Afeganistão, do Iraque, dos conflitos étnicos na África, nas guerrilhas sul-americanas, no tráfico de armas, etc.
Curiosamente, o criador da máquina de morte nunca recebeu um centavo por sua invenção. Como não licenciou patente, deixou nas mãos do exército russo a opção de distribuir a seus aliados a possibilidade de reproduzirem o armamento. Vivia com uma pensão próxima do salário mínimo. Recebeu condecorações e um punhado de medalhas, mais nada.
Mikhail Kalashnikov saiu da Rússia pela primeira vez com 80 anos de idade, na década de 1990. Convidado pelo diretor de um museu de armas, viajou para os Estados Unidos para um encontro com o inventor do fuzil M-16, o grande concorrente do AK-47. Quando desceu do avião, poucos acreditaram que aquele velhinho de paletó rasgado e sapatos furados era o criador do famoso fuzil letal.
Nas primeiras entrevistas, dizia que não se arrependia de ter criado um instrumento que provocou a morte de milhões de pessoas: ''Fiz o que tinha que fazer''. Com a sucessão de entrevistas, começou a mudar seu discurso. Em 2002, declarou que ''gostaria de ter inventado um cortador de grama'', não uma arma.
Após entrar em contato com o mundo, Kalashnikov resolveu ganhar algum dinheiro vendendo seu nome para um marca de vodka. Converteu-se num autêntico e picareta garoto propaganda: ''Não estou mais interessado em guerra, somente na minha vodka com poder militar. Gosto de sentar e brindar às amizades. Se o mundo fizesse mais isso e lutasse menos, seria um lugar melhor.''
''AK-47'' traz uma história fria, gélida como metal. E assustadoramente triste. Revela que nunca será possível realmente saber o que existe atrás de uma arma. Nunca. Na frente dela sempre estará o óbvio. Morte.
Serviço
AK-47
Autor -
Larry Kahaner
Editora - Record
Tradução -
Mário Pina
Páginas - 266
Quanto - 44,00
Embora muitas pessoas considerem de mau gosto explorar uma arma mortal para ganhos financeiros, exemplos ainda mais bizarros começam a surgir. Não mais como parte somente da cultura militar, da contracultura ou da Cultura Kalashnikov no Oriente Médio, o AK estava sendo visto e mencionado quase diariamente em filmes importantes, em livros e na televisão. O que uma vez foi um item horrível, porém de uso diário em algumas partes do mundo, era agora uma parte sólida da cultural global contemporânea.
(Fragmento de AK-47,
de Larry Kahaner)


