Mapeando novas rebeldias
ReproduçãoA General Visão, segundo o editor Rogério Campos, é uma publicação dirigida ao público mergulhado na cultura de imagensRevista General está de volta
falando de cinema, quadrinhos,
design, games, midia,
literatura, subversão e música
Nelson Sato
O universo dos gibis alternativos, a nova moda de Elisa Stecca, os monstros japoneses e a obra do pintor norte-americano Robert Williams são algums dos atrativos que recheiam o número de lançamento da revista General Visão.
É uma amostra do que vem por aí. O número 1 está previsto para sair em março. A revista radicaliza o projeto editorial da General, publicação que circulou nas bancas entre 94 e 96. ‘‘Essa é a segunda fase daquele projeto, mas é como se fosse uma nova revista. A idéia é discutir a cultura pop sem ranço e ao mesmo tempo sem superficialismo. A tentativa é chegar a um formato ideal inspirado nas publicações independentes, na estética punk e no que está acontecendo hoje’’ - explica o editor Rogério de Campos.
A ambição se traduz, no número de lançamento, em fartas doses de estímulos aos leitores. Além dos destaques citados, inclui uma entrevista com o quadrinhista britânico Alan Moore (criador dos já clássicos ‘‘Watchmen’’ e ‘‘V de Vingança’’), um texto-manifesto assinado por Pierre Canjuers e Guy Debord (dupla de ativistas libertários da década de 60), uma reportagem sobre o desenhista gaúcho Benício (cartazista oficial do cinema brasileiro), um papo com a designer gráfica Joana Cecato (uma das manda-chuvas da MTV Brasil) e uma matéria lamentando o fim da revista radical Class War (cujo célebre número de estréia convidava os vagabundos da Inglaterra a arrumar um revólver ou uma faca para matar os ricos).
ReproduçãoNas páginas internas da revista, estímulos visuais não faltamGeneral Visão, salienta o editor, é dirigida para o público mergulhado na cultura da imagem. ‘‘Hoje em dia o visual ocupa um espaço muito grande na vida das pessoas’’ - diz ele. ‘‘A revista é dedicada para ao cara de vinte e poucos anos que trabalha em banco e é fã de Arquivo X. É dedicada também para quem joga games, coleciona pôsteres, compra bonecos de heróis japoneses, usa camisetas de seriados de TV ou é ligado em computação gráfica’’.
Ele lembra que a revista nasceu como uma brincadeira. ‘‘Era para ser uma publicação só de quadrinhos. Depois fomos colocando outras coisas e virou isso a풒 - conta. Não por acaso, a maior parte das páginas da edição inaugural é reservada às HQs, de cujo assunto Rogério de Campos é um dos experts no País. Convém lembrar que coube a ele a responsabilidade de organizar as informações do CD-ROM Enciclopédia Herói, lançado no ano passado e considerado material de referência obrigatória para quem pesquisa o tema.
Antes, nos anos 80, ele atuou na imprensa assinando um coluna semanal sobre quadrinhos num jornal de circulação nacional. Na mesma época, editou as revistas Animal e Terror e Ficção, duas publicações de HQs bastante procuradas em sebos. Na nova empreitada, os quadrinhos ocupam espaço não só como assunto de artigos, notas e reportagens mas abastecem eles próprios as páginas com histórias assinadas por Allan Sieber, Greg Digenti, Gahan Wilson, Marcelo Gaú, Carlos Nine, Doug Moench e Alex Wald.
A entrevista com Alan Moore, o mais influente autor dos quadrinhos ingleses, traz trechos reveladores. Ele confessa, por exemplo, que sempre escreveu sob efeito de drogas. ‘‘Só uso drogas psicodélicas, não gosto das outras’’ - diz. ‘‘Cogumelo eu também tomo bastante. Fumo cerca de 50 gramas de haxixe por semana. É um consumo alto, mas isso projeta a minha mente para fora de convenções e padrões de pensamento’’.
Outra matéria de peso dedicada à HQ mapeia o panorama norte-americano, familiarizando o público brasileiro com títulos e autores desligados da grande indústria. A reportagem é de Cris Siqueira que, ao lado da fotógrafa Carol Pfister, rodou os Estados Unidos durante dois meses trombando com artistas respeitáveis no meio como Pete Bagge (criador de ‘‘Hate!’’, o gibi mais vendido da Fantagraphics, principal editora alternativa dos quadrinhos norte-americanos), Jaime e Gilbert Hernandez (criadores da série ‘‘Love & Rocketts’’), Adrian Tomine (autor de ‘‘Optic Nerve’’), Chris Ware (a maior unanimidade entre os alternativos), Terry Laban, Jessica Abel e outros da mesma estirpe.
Se você ficou curioso em ler essa reportagem da Cris, sinta-se a um passo do paraíso. A matéria é só um aperitivo para o livro Comic Book - O Novo Quadrinho Norte-Americano, que está na boca do forno da editora Conrad, a mesma da revista.
A General Visão está nas bancas ao preço de R$ 6,90.

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