São Paulo, 19 (AE) - Numa noite no fim de 1993, o publicitário Wagner Bezerra chegava do trabalho na hora da novela das 8 da Globo, na época "De Corpo e Alma", escrita por Glória Perez, quando se surpreendeu com a seguinte cena: na TV, rapazes de corpos musculosos dançavam e tiravam a roupa num clube de mulheres enquanto, na sala de sua casa, seu filho mais novo, de 5 anos, imitava a ficção ensaiando um strip-tease incentivado pela irmã um ano mais velha. O que parecia ingênuo e engraçado à percepção infantil deixou Bezerra preocupado e o estimulou a iniciar o projeto do livro "Manual do Telespectador Insatisfeito", que a editora Sumus planeja lançar em junho.
"Meu objetivo com esse manual é tirar o telespectador da passividade diante da TV", explica Bezerra. "Insatisfeito com a programação, o telespectador poderá enfrentar o desafio de aprender a lidar crítica e ativamente do veículo que invade sua casa apresentando uma maneira pronta e acabada da realidade". O livro é, na verdade, a publicação de parte do trabalho final de Bezerra no curso de pós-graduação da Escola de Políticas Públicas e Governo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
O "Manual do Telespectador Insatisfeito" é dividido em cinco capítulos: Regulamentação, Controle da Mídia, Critérios da Produção Televisiva Nacional, Regionalização, Identidade e Cidadania e ainda TV versus Crianças e Adolescentes - A Educação como Novo Paradigma. Os dois primeiros capítulos foram concluídos durante o curso e o autor está finalizando os restantes. "O tema é atualíssimo", observa o editor da Sumus, George Schlesinger, que se interessou prontamente pela publicação do trabalho. "A discussão sobre ética e qualidade da programação da TV está fervilhando e nos interessa lançar livros com propostas ousadas".
É, de fato, uma ousadia dispor-se a revelar os segredos do poder da televisão, as mensagens maliciosas por trás dos programas infantis, a suposta atitude parcial de uma determinada emissora durante as eleições ou o seu uso para fins politiqueiros. Desafio ainda maior se considerando que estamos no sexto país no mundo com o maior número de TVs: são 37 milhões de lares com TV.
Por aqui todo mundo assiste, comenta, discute, enfim, tem uma opinião formada sobre a programação. No Brasil há menos TVs apenas que na China (290,5 milhões), nos Estados Unidos (98 milhões), na Rússia (56,5 milhões), na Índia (50 milhões) e no Japão (44,2 milhões), segundo relatório divulgado no ano passado pela Associação Brasileira de Telecomunicações por Assinatura (ABTA).
Bezerra, prudentemente, parece optar por dar suas opiniões baseado em fatos, números e textos de leis. No capítulo inicial, sobre a regulamentação, o autor lança pergunta que não tem resposta: a quem podemos recorrer quando nos sentimos ofendidos, agredidos por algum programa de TV? Os três artigos da Constituição de 1988 que tratam do assunto ainda não foram regulamentados, embora na quarta-feira o ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, tenha recebido da sexóloga Marta Suplicy, um breve texto com os artigos que faltam ser regulamentados e ressaltando a importância de que tudo seja feito com rapidez.
O "Manual do Telespectador Insatisfeito" informa o leitor sobre a Lei Eletrônica de Comunicação de Massa, que está sendo preparada pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Bezerra apresenta em seu livro uma série de dez perguntas feitas a executivos da Anatel, com as quais pretende adiantar ao leitor o que esperar da nova lei. À questão sobre a forma como o telespectador poderia reagir contra o que considerasse abusivo na TV, o representante da Anatel respondeu: "A nova lei deverá ter um dispositivo que prevê que toda programação poderá ser selecionada pelo telespectador, mesmo a da televisão aberta, uma vez que o desenvolvimento tecnológico possibilita a instalação de mecanismos eletrônicos que permitirão ao telespectador escolher o que será exibido em seu televisor".
No segundo capítulo, Bezerra procura contar ao leitor como se dá o processo de concessão de canais de TV e pretende relatar o que chama de "a histórica utilização político-eleitoreira da distribuição de concessões". "É preciso ficar claro que não há donos de canais, mas detentores de concessões públicas", afirma.
No capítulo seguinte, o autor sugere que a filosofia da produção televisiva deixe de ser a busca desenfreada pela audiência e passe a ser um misto de educação e entretenimento. "Em nome da audiência comete-se toda a sorte de abusos", diz. "Enquanto TVs educativas e mesmo a Globo, com atrações como a microssérie "O Auto da Compadecida", mostram que é possível realizar programas de qualidade".
Antes de concluir o livro, o autor quer abrir a discussão com leitores e divulga seu endereço eletrônico: [email protected]. Nos capítulos finais, Bezerra pretende ressaltar a importância da regionalização da programação das redes e entra no campo minado da discussão do que é bom ou ruim para as crianças e os adolescentes. Ainda que prometa avaliar aspectos tão vastos desse meio eletrônico tão complexo, o trabalho de Bezerra tem de antemão o mérito de discutir um tema tão falado (a ética na TV) e de bibliografia ainda muito carente.

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