Em 12 de março de 2004, um atentado em Madrid, matando 191 pessoas, foi noticiado com a mesma foto na capa de quatro grandes jornais brasileiros. A foto mostrava vítimas sendo atendidas ao lado do trem explodido por terroristas. Em dois desses jornais, aparecia um braço caído junto aos destroços. Nos outros dois, esse elemento não estava - eles haviam retirado o braço digitalmente, talvez por considerá-lo chocante demais.
O caso ganhou repercussão no meio jornalístico ao levantar a discussão sobre até que ponto é possível alterar uma fotografia, em quais circunstâncias, e sob qual justificativa - questão que permanece bastante atual. Uma coisa é retirar, via computador, as gorduras extras de uma mulher para um álbum de família, outra é fazer isso na revista masculina (certa vez, uma equipe esqueceu-se de colocar de volta o umbigo de uma modelo e a foto foi publicada assim mesmo), e outra completamente diferente, é alterar uma imagem que documenta um fato real, e publicá-la no jornal como se essa fosse a exata reprodução da realidade.
''Na história do fotojornalismo, a manipulação sempre existiu. O simples fato de pedir para o fotografado mudar de lugar para não ficar contra a luz já é uma manipulação, a forma de enquadrar a foto também. Mas agora isso tem atingido proporções antes inimagináveis'', observa o fotógrafo Thales Trigo, diretor da Fullframe Escola de Fotografia e autor do livro ''Equipamento Fotográfico - Teoria e Prática''. Trigo esteve em Londrina na semana passada para a aula inaugural do curso de Artes Visuais da Unopar.
Para ele, poder modificar a foto é um recurso interessante, mas que, diante disso, nunca a credibilidade de uma imagem foi tão questionada. ''As gerações mais antigas ainda acreditam que a imagem que está diante delas seja real. Mas os mais jovens cresceram habituados ao virtual, e para eles é natural olhar para uma imagem e questionar se aquilo é mesmo real'', compara.
Os critérios e limites ainda são subjetivos. Na foto de uma mesa diretora em uma solenidade, o editor pode retirar digitalmente uma bolsa deixada sobre a mesa, que esteja atrapalhando o visual da foto? E qual a diferença de se retirar a bolsa antes de fotografar ou depois, com a foto já pronta? Diante desse questionamento, Trigo é enfático: ''Para mim, a bolsa não faz diferença, mas um pedaço de gente que explode em Madrid faz. A bolsa é só uma questão estética, não traz alterações no evento, na ideologia da imagem'', analisa.
Para delimitar essas circunstâncias o fotógrafo só vê uma alternativa. ''A única maneira de ter uma informação confiável é através da ética. Para acreditar, é preciso confiar'', conclui.

mockup