A bíblia beat vai a leilão. O original do livro ‘‘On The Road’’, de Jack Kerouac, será disputado na próxima terça-feira durante uma sessão promovida pela casa Christie’s, em Nova York.
O valor da peça está estimado entre US$ 1 milhão e US$ 1,5 milhão, cotação infinitamente superior aos US$ 15 mil já desembolsados pelo ator Johnny Depp para arrematar um blusão de seu ídolo.
O livro é o grande clássico da geração beat. Narra a viagem de dois amigos que cruzam de costa a costa, e de carona, as estradas da América. Kerouac finalizou-o em 1951. Mas teve que amargar sete anos para vê-lo pular da gráfica em direção às prateleiras.
Diz a lenda que o escritor datilografou o volume em 20 dias, movido a anfetamina, usando um rolo de papel telegráfico para não ser interrompido. O procedimento seria uma tentativa de aproximar sua prosa espontânea dos improvisos do jazz, particularmente do bebop de Charlie Parker, ao som do qual rascunhara muitas linhas da obra.
Mas ao longo dos anos em que o manuscrito foi sucessivamente recusado pelas editoras, Kerouac o reescreveria inúmeras vezes. Quando a Viking Press enfim decidiu lançar o livro, forçou o autor a suprimir algumas passagens. Outras, o próprio editor (Malcolm Cowley) se encarregou de cortar, além de incluir ‘‘milhares de vírgulas inúteis’’, segundo Kerouac.
Um dos trechos deletados mostrava Dean Moriarty (Neal Cassady) possuindo sexualmente um caixeiro viajante. As mutilações, no entanto, não apagaram o fôlego narrativo desvairado do autor. A prosódia bop, estilo que criou, embutia blocos compactos de texto misturando relato, evocação e reflexão que iam e vinham no tempo dentro dos mesmos parágrafos.
A idéia era transportar para o papel o próprio fluxo da consciência, a sucessão de imagens e idéias. ‘‘Jack Kerouac fez com a nossa prosa imaculada algo de que ela talvez jamaia venha a se recuperar’’ – notou, certa vez, Henry Miller. Eduardo Bueno, o tradutor da última edição brasileira de ‘‘On The Road’’, escreveu na introdução do volume que Kerouac escrevia para ser lido em voz alta:
‘‘Com o tempo, seu intelecto mergulharia num oceano de sonoridade e harmonia melodiosa que o afastou progressivamente do significado formal das palavras’’. Nos Estados Unidos, o culto que começou em 1957 prossegue até hoje com força total. Prova disso, são os milhares de dólares gastos em botões, camisetas, calendários e pôsteres com a efígie de Jack Kerouac. Ciclos de súbita redescoberta ocorrem periodicamente.
Há pouco, a rede de livrarias Barnes & Noble (www.bn.com) colocou seu romance de estréia – ‘‘Orpheus Emerged’’ – à venda na Internet. Quando o escreveu, Kerouac tinha 23 anos e ainda assinava ‘‘John’’. Tinha acabado de abandonar a Universidade Columbia e de conhecer Allen Ginsberg e Willian Burroughs, os dois outros ícones da geração beat.
O livro permaneceu inédito todo esse tempo e só agora foi liberado pelos donos do espólio do escritor. Mas por enquanto está disponível apenas como e-book, para ser baixado no computador do interessado. A versão impressa está prevista para ser lançada no ano que vem. Já ‘‘On The Road’’ segue renovando admiradores.
No Brasil, recebeu a primeira tradução na metade dos anos 80, a bordo de um pacote beat lançado pelas editoras Brasiliense e L&PM, que apresentou ao público local autores como os já citados e mais Gregory Corso, Lawrence Ferlinghetti, Gary Snyder e Carl Solomon. ‘‘On The Road’’ virou ainda uma pedra no sapato do cineasta Francis Ford Coppola, que várias vezes anunciou o projeto de filmá-lo, sem nunca concretizá-lo.
O interesse vem desde o final dos anos 60. Em 1995, o diretor chegou a convocar – com a ajuda de Ginsberg – uma audição pública em Nova York para achar a sua turma de beatniks. Mas logo desistiu do projeto por não encontrar quem quisesse financiá-lo do jeito que queria: rodado em 16 mm, em preto-e-branco, fiel ao espírito da narrativa.
Para Kerouac, ‘‘On The Road’’ foi sua glória e sua danação. O livro atingiu tal escala de influência que engoliu a figura do escritor, confundido com a criatura, o personagem Sal Paradise. Suas demais guinadas literárias, seu vasto projeto autobiográfico, sua conversão ao budismo (para o qual foi introduzido pelo poeta Gary Snyder), seus devaneios cristãos, seu crescente conservadorismo (ele denunciaria Ferlinghetti e Lipton como comunistas) e o experimentalismo de seu livro ‘‘Visions of Cody’’ – tudo se ofuscaria diante da mística de ‘‘On The Road’’.
Toda e qualque resenha de seus livros posteriores invariavelmente os comparava ao ‘‘original’’ – sempre desfavoravelmente. Entronizado a rei do beats, uma honraria que nunca quis, Kerouac entrou em parafuso em 1961. Rabugento, imprecava contra os estereótipos que cercavam a expressão beat. Recolheu-se na casa da mãe. Nos últimos anos de sua vida, passava os dias secando garrafas de Johnny Walker e assistindo televisão.
Morreu barrigudo e alcoólatra no dia 21 de outubro de 1969 depois de sofrer uma hemorragia interna. Tinha 47 anos. Na época, dezessete de seus mais de 20 títulos estavam fora de catálogo.

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