Em 1969, no interior dos Estados Unidos, um evento, chamado de Woodstook, tornou-se o grande marco das manifestações de rebeldia dos jovens à época. Na linha de contestação que vinha da Europa, principalmente depois do chamado ''maio de 68'', na França, em que os estudantes queriam ''a imaginação no poder'' e levantaram barricadas contra a repressão do Estado. O movimento hippie serviu para mudar o comportamento da humanidade levando a bandeira do ''paz e amor'' como símbolo de uma geração. Não era à toa. Aos poucos a população norte-americana foi tomando consciência do que representava a guerra (invasão) do Vietnã e nomes como o do próprio pugilista Classius Clay - que acabou se tornando Mohamed Ali - e do astro John Lennon se levantavam contra a insanidade bélica e propunham, como Ghandi, anos antes, na Índia, a desobediência civil. Não foram poucos os jovens que recusaram o alistamento no exército.
O mundo nunca mais foi o mesmo. Nem a arte, que com sua visão utopista e libertária sempre se colocou de maneira crítica contra toda a espécie de barbárie no poder. As formas de se criar, em arte, passaram a ser quase que militantes e nenhum meio de comunicação possível foi-lhe indiferente. Tudo poderia ser matéria de manifestação. A própria manifestação se tornando também um ''produto artístico''. Cada vez menos sujeito à mercantilização. Cada vez mais infiltrada nos intestinos sociais, culturais e políticos de sua época.
Se nos vêm a mente imagens como a de Jimmy Hendrix colocando fogo em sua guitarra, daqueles cabeludos andando pelado no meio da lama, em um evento que, a princípio era para ser apenas um show de rock em uma cidade do interior e se tornou uma grande manifestação ''flower power'', é porque havia, naquele instante, uma liberação de energia capaz de unir o pensamento de milhares de pessoas a fim de compartilhar um sentimento. Portanto, o próprio evento se tornou uma grande ação artística.
Se a própria idéia sobre o que é arte sofreu transformações é porque seu papel histórico tem se transformado no ritmo em que a velocidade das comunicações, informações, tecnologias e também a consciência social, cultural e política também o fazem. Movimentos como o da arte conceitual já propunham, inclusive, a dissolução do objeto artístico como forma de fazer arte. Trabalhos com dinheiro, como os de Cildo Meireles, colocando idéias em circulação em sistemas ideológicos, ou ambíguos em relação à sua proposta artística foram um passo a mais nessa relação em que a arte deixa de buscar referências em sua própria história para atuar diretamente no cotidiano das pessoas, deslocando o entendimento e a percepção de algo dado, pelo menos enquanto essa ação/intervenção possa durar.
Da arte conceitual em diante não há mais restrições materiais. Tudo pode ser usado: jornais, revistas, publicidade, o correio, telegramas, livros catálogos, fotocópias, ou até mesmo um evento. Tudo se converteu em novos veículos e, ocasionalmente, em novos tópicos de expressão. ''Se alguém diz que isto é arte, isto é arte'', declarou Donald Judd, reiterando Duchamp. Judd também observou que ''os avanços em arte não são necessariamente formais'' (mas conceituais). Ambas as citações figuram no artigo de Joseph Kosuth de 1969, intitulado ''Art after Philosophy'', no qual distinguiu a arte antes e depois de Duchamp. Kosuth trabalhava muito com as definições verbais de dicionário sobre o objeto, para que se tivesse a idéia do objeto, mas prescindindo do objeto em si.
Graças à visão desses artistas pioneiros, uma publicação como a revista Lumpen, nos EUA - que prega inclusive a sabotagem como meio de expressão - pode ser patrocinada por empresas comerciais, que desejam ver suas marcas associadas a este tipo de discussão contemporânea. Em uma publicação de maio de 2002, seu editorial questiona a política internacional norte-americana e propõe que se deva ''questionar não o que seu país pode fazer para controlar o terror, mas o que ele pode fazer para fomentar o amor''.
Aqui no Brasil, temos desde manifestações isoladas que tocam nas questões sociais, políticas e culturais, como um trabalho de Newton Goto, de Curitiba, que usa o símbolo do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (1999), passando por Jailtão, de São Paulo, interferindo em placas de sinalização, ou Edson Barrus, com o seu ''Cão mulato'' transgênico (1999), onde o único resultado visível são bulas de código genético, mostrando as possibilidades de se criar um animal ''impuro'' a partir de ''raças puras''. Ou o espaço, por ele criado, chamado Rés-do-chão, em que transforma sua própria casa em eventos de ação, manifestação e intervenção, até o ''O Dia do Nada'', acontecido em 2002, na cidade de Londrina, em que vários artistas ocuparam uma praça da cidade, junto com outros artistas e não artistas, para fazer, simplesmente, nada, resultando daí não só ''uma obra conceitual'', mas uma estratégia de continuidade de um processo onde arte e vida se fundem e confundem.

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