Mangueira lança álbum duplo com 57 sambas históricos
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terça-feira, 15 de fevereiro de 2000
Por Beatriz Coelho Silva 
Rio, 16 (AE) - A memória da Estação Primeira de Mangueira, a mais antiga escola de samba do Brasil, está preservada. Uma festa na quadra da agremiação, no morro que lhe dá nome, lança amanhã (17) o CD-livro "Mangueira - Sambas de Terreiro e Outros Sambas", patrocinado pelo Arquivo Geral da Cidade. São 57 sambas compostos desde a fundação da escola, nos anos 20, até meados dos anos 60, que corriam risco de se perder, pois não eram mais cantados nos ensaios e estavam guardados apenas na memória dos mais velhos. Agora estão à dispoição do público.
Quem primeiro pensou em mapear os sambas das escolas foi a diretora do Arquivo Geral da Cidade, Lélia Coelho Frota, que recorreu ao compositor e produtor Hermínio Bello de Carvalho, um apaixonado pela música popular, em geral, e pela verde-e-rosa, em particular. Ele trouxe fitas com registros de rodas de samba dos anos 60 e o CD-livro partiu daí. Na verdade, são dois discos
pelos quais se espalham 57 músicas em duas horas e 20 minutos. No primeiro, o diretor musical Paulo Roberto Araújo, o Paulão, o mesmo do disco da Velha-Guarda da Portela, produzido por Marisa Monte, usou só as fitas trazidas por Bello de Carvalho. Se o som é precário, transborda emoção. Há preciosidades.
Cartola dá opiniões em arranjos ou canta acompanhado por Jacó do Bandolim ao violão, Carlos Cachaça canta seu amor à Mangueira e ao Brasil sem a menor pieguice, as pastoras Zélia, Zenith e Sônia (estas, filhas de Geraldo da Pedra, compositor da escola) e o lendário Padeirinho satirizam a bossa nova no delicioso samba "Modificado", resposta ao "Desafinado", que havia expulsado o samba das rádios. No disco dois, Paulão vestiu os sambas com a roupagem tradicional (violões de sete e seis cordas, cavaco e percussão) e, por vezes, teve o auxílio luxuoso do trombone de Zé da Velha.
Neste disco, o compositor Zé Ramos, redescoberto por Chico Buarque, grava pela primeira vez, dona Neuma mostra que a voz falha, mas o balanço está intacto e Xangô da Mangueira reina com sua voz poderosa, muitas vezes acompanhado só de percussão. Atenção especial para o samba "Terreiro em Itacuruça", ponto de macumba que satiriza a religião, e "Freira Querida", de Nelson Cavaquinho e Alfredo Português (padrasto de Sargento), que mistura respeito e ironia.
Mas tem mais. Um livreto conta as histórias dos sambas e dá informações curtas sobre cada um dos compositores e músicos da Mangueira que participaram dos discos. Fundamental para se aprender nas escolas, do Primeiro Grau à universidade, onde o CD-livro será distribuído, que samba não é coisa de malandro. Dos 27 compositores presentes, só Geraldo Pereira (que fez sucesso em vida) e Cartola (idem, mas já na velhice) não tiveram outra ocupação fixa. Os outros defenderam ou defendem o leite das crianças (e a cerveja dos pagodes) em trabalhos fixos, às vezes pesados como a estiva e a construção civil.
O disco não foi feito para as lojas, mas nada impede as gravadoras de comprar dos compositores os fonogramas. Generosamente, o Arquivo Geral cedeu aos sambistas os direitos sobre as gravações e deu permissão para sua venda. Quem se habilita?


