São Paulo, 12 (AE) - A herança surrealista na arte brasileira é o fio condutor da quarta exposição do grupo de Estudos em Curadoria do Museu de Arte Moderna (MAM), que será inaugurada amanhã (13) à noite. Idealizada por Felipe Chaimovich
a mostra "O Sono da Razão" reúne mais de 20 obras pinçadas no acervo do museu que demonstram na prática como os artistas brasileiros receberam, absorveram e reelaboraram os princípios transgressivos do surrealismo.
A principal característica desse tipo de operação artística é propor enigmas incômodos ao público, forçando-o a abandonar as seguranças do gosto estético médio e do bom senso e a enfrentar esse desafio criando as próprias regras. "Ao fazer isso, ele se torna participante ativo do processo de invenção de um mundo onde caberiam elementos habitualmente excluídos", escreve o curador no texto de abertura da exposição, que, em vez de estar numa parede, será distribuído ao público.
Além de expor trabalhos que retrataram os primórdios dessa influência, assinados por artistas como Ismael Nery e Flávio de Carvalho, Chaimovich partiu de três enfoques distintos para abordar a questão do surrealismo. O primeiro deles é um texto de Mário Pedrosa, publicado em 1967, no qual o crítico procura comparar a arte brasileira do período e o surrealismo, vendo o movimento em torno da antológica mostra "Nova Objetividade Brasileira" como "uma crítica da alienação cotidiana do objeto", ação que se perpetua até nossos dias na obra de artistas como Nelson Leirner e Regina Silveira - representados respectivamente com "Armazém e Meret Oppenheim com Sombra Peluda" -, assim como no trabalho de seus herdeiros.
A outra linha de pensamento que norteou o projeto de curadoria é a presença do surrealismo na arte conceitual brasileira - quer ele tenha chegado ao País via Estados Unidos, trazido por artistas como Wesley Duke Lee, quer por influência do novo realismo francês. No entanto, o conjunto de obras tem um escopo bem mais amplo, indo desde uma instigante e potente cabeleira de Tunga até uma "indigesta" assemblage de Farnese de Andrade que confronta uma imagem sagrada a uma dentadura. Há obras que provocam a aversão do público, como "Torção de uma Inglesa", de João Câmara.
Mas há também obras que encantam o olhar, como a bela pintura primitiva "O Trem da Felicidade", de Zé Inácio. "É o surrealismo que referenda a arte popular, naif, a expressão artística dos loucos", explica o curador. Sem se importar com a origem do parentesco surrealista, o que Chaimovich propõe é mostrar o potencial político da arte (no sentido mais amplo) de mudar sua relação com o público, evidenciando o interesse dos artistas brasileiros em redefinir o objeto de arte em função de seus interesses culturais.

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