MAM expõe antologia de Lígia Clark
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de maio de 1999
Por Maria Hirszman 
São Paulo, 31 (AE) - Finalmente chega a São Paulo uma grande mostra da obra de Lígia Clark (1920-1988), que abrange toda a sua produção. Não se trata da gigantesca retrospectiva "Caminhando", montada em 1997 pela Fundação Tapis de Barcelona, que circulou pela Europa e recentemente foi exibida no Paço Imperial no Rio de Janeiro. É uma antologia que compensa a redução da quantidade de obras pela qualidade dos trabalhos e pelo cuidado na concepção da exposição, mostrando passo a passo o caminho traçado pela artista para fazer o que o curador Paulo Herkenhoff considera uma das obras mais revolucionárias deste século.
Uma das peças mais atrativas da mostra será, sem dúvida, a reconstrução em grande escala, 35 anos depois, de uma maquete projetada por Lígia num período de grande envolvimento com neoplasticismo e na qual ela busca promover uma fusão no campo tridimensional entre três elementos: o plano, a área geométrica e a cor. A maquete serve como porta de entrada da exposição (literal e conceitualmente).
Estão representadas na exposição todas as fases de sua produção, desde as pinturas e os espaços modulados iniciais, passando pelos casulos, bichos, trepantes e outros estranhos objetos tridimensionais e chegando às experiências terapêuticas do fim. Herkenhoff e seu curador-assistente, Ricardo Resende, chegaram a montar em uma das salas do museu uma espécie de "consultório", onde serão reproduzidas as experiências desenvolvidas por Lígia com seus pacientes, usando os objetos relacionais. Essa guinada em direção à psicanálise levou Lígia a um grande isolamento. "O que eu faço não é psicanálise e não é arte; fico na fronteira, completamente sozinha", escreveu ela.
Processo educacional - Há na exposição outras obras inéditas para o grande público, como a tela "Composição", de 1954, que foi emprestada pela colecionadora venezuelana Patricia Cisneros, ou a obra sem título de 1951, que pertence ao acervo da Faap e na qual a artista pinta uma escada em caracol, deixando evidente desde o início sua grande preocupação tanto com o espaço arquitetônico quanto com a organicidade da forma.
"Estou tratando a Lígia como arquiteta do instável", explica Herkenhoff, usando uma expressão da própria artista. É interessante notar no percurso da mostra que, ao mesmo tempo que a produção de Lígia tem uma linearidade surpreendente, ela promove em alguns momentos cortes extremamente radicais.
Sua preocupação permanente é a relação entre o espaço e o tempo. Mas se essa questão parece clara nas pinturas de meados dos anos 50 - Lígia começou sua carreira tardiamente, começando a estudar pintura em 1947, quando já havia tido três filhos -, ela vai se tornado cada vez mais complexa à medida que a artista elimina as barreiras entre a obra e o espectador e cria uma linguagem cada vez mais subjetiva.
Por isso mesmo, a expectativa maior do curador é com o processo educacional, que permitirá a socialização do processo de Lígia Clark com o público. Sem essa intermediação, as pessoas hesitam em tocar nas peças feitas exatamente com esse objetivo. Na última Bienal não foi possível estabelecer essa relação, mas Herkenhoff atribui isso à escala gigantesca e diluidora do evento, que não permite estabelecer uma interação tão subjetiva.
Às afirmações de que há uma excessiva concentração dos olhares sobre Lígia Clark e Hélio Oiticica, como se eles explicassem sozinhos a evolução da arte brasileira que os sucedeu, o curador reafirma que os dois "mudaram a arte mundial" e sua importância ainda não foi devidamente absorvida nem no Brasil nem no exterior.
"Lígia compreende a história do espaço, recebida como a história do plano, a direciona para a topologia, depois passa por essa vivência sensorial e finalmente transporta tudo isso para o território da fantasmática", resume o crítico. Segundo ele, a artista conseguiu ir muito além do suprematismo e do reducionismo de Mondrian, quando tudo indicava um esgotamento, que a arte enfrentava um beco sem saída.
Herkenhoff, que foi curador da última Bienal de São Paulo e em breve vai integrar a equipe do Museu de Arte Moderna de Nova York , considera Lígia uma pessoa que está do avesso, "com uma sensibilidade mais do que à flor da pele, uma sensibilidade completamente exposta".
Além de sua admiração pela artista, que esteve presente em vários momentos importantes de sua carreira, o fato de organizar essa mostra tem um significado especial para o curador
que gosta de ver essa experiência como um presente seu a São Paulo pelo convite para ser o curador de sua Bienal. Serviço - Lígia Clark. Terça, quarta e sexta, das 12 às 18 horas; quinta, das 12 às 22 horas; sábado e domingo, das 10 às 18 horas. R$ 5,00. MAM. Parque do Ibirapuera, portão 3, tel. 549-9688. Até 1.º/8. Abertura às 19 h.


