MAM expõe a arte contagiante de Raoul Dufy
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terça-feira, 10 de agosto de 1999
Por Maria Hirszman 
São Paulo, 11 (AE) - Após ter sido uma das grandes atrações da mostra "De Picasso a Soulages", realizada durante as comemorações do cinquentenário do Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, no ano passado, a obra do francês Raoul Dufy (1877-1953) retorna agora ao País com um novo brilho. A partir de amanhã à noite, uma retrospectiva de mais de 50 trabalhos de sua autoria poderá ser vista no museu do Parque do Ibirapuera, contagiando o público com sua intensa vibração gráfica e cromática.
Cedidos pelo Museu de Arte Moderna de Paris, que possui mais de uma centena de trabalhos do artista - uma das maiores coleções de sua obra -, a mostra retrata todos os momentos importantes da carreira de Dufy , que no início de sua trajetória flertou com movimentos artísticos como o impressionismo, o fauvismo e o cubismo. As obras reunidas na primeira sala do MAM refletem esse período, como as telas "Paisagem de Provence" e "Paisagem de Vence", esta útlima com um estilo que lembra muito Cézanne, como afirma a co-curadora Dominique Gagneux em seu texto sobre a coleção Dufy. Aliás, essas duas telas integraram a mostra do ano passado.
Num segundo momento, o visitante é apresentado à obra mais madura e independente de Dufy, que influenciou muitos artistas, notadamente no Brasil. Como define bem a diretora do MAM de Paris, Suzanne Pagé, a obra do pintor "articula-se em torno de temas recorrentes: as paisagens da Normandia e da Provença, o mar com suas regatas, suas competições náuticas e seus veleiros, os hipódromos com seus cavalos, os trabalhos do campo e as flores". Esse universo pessoal e encantador acaba seduzindo o espectador e reflete de maneira otimista a alegre vida da burguesia francesa nos primeiros anos deste século.
Tudo é tema para Dufy. Aliás, essa diversidade também se verifica nas inúmeras técnicas adotadas pelo artista, que não se restringiu apenas à pintura tradicional sobre tela, mas também realizou experiências em vários campos (como provam suas belas e cada vez mais transparentes aquarelas) e desenvolveu importantes trabalhos na área do design, criando uma série de estampas para seu amigo, o costureiro Jean Poiret. Alguns desses projetos, como uma interessante composição com jogadores de tênis, podem ser vistos no MAM.
Segundo a cronologia oficial, foi entre 1926 e 1927 que Dufy teve a revelação da independência entre a forma e a cor, ao ver uma garota correndo no cais da bela cidade normanda de Honfleur. Para ele, são esses dois elementos (consequentemente a liberdade do gesto e o equilíbrio das cores), e não a razão, os elementos constitutivos da pintura.
São inúmeros os destaques cedidos pelo museu parisiense, mas sem dúvida uma das peças mais importantes da mostra é uma versão reduzida de "La Fée Electrique" ("A Fada Elétrica") , que resume de forma quase apoteótica as experiências com as linhas e as cores desenvolvidas pelo artista. O original é um painel de 10 m x 60 m, que atualmente está no Palais de Tóquio (sede do MAM de Paris) e reconta a história da eletricidade. Os paulistanos terão a oportunidade de ver uma impressionante versão reduzida dessa obra (que mesmo assim tem 6 metros de comprimento) na atual retrospectiva.
Finalmente, para concluir a mostra com chave de ouro, foi organizada uma interessante exposição de quatro grandes artistas brasileiros, que deixam evidente a influência direta ou indireta do artista sobre suas obras. São eles: Guignard, Volpi, Ernesto de Fiori e Iberê Camargo - do qual são exibidos três trabalhos nunca mostrados antes.
Permitindo contrapor a obra desses mestres ao universo criativo de Dufy - que tanto marcou suas obras iniciais - e depois verificar como eles vão se tornando independentes do pintor europeu e de seus pares para constituir seus próprios discursos pictóricos, o evento paralelo pretende ampliar ao máximo a possibilidade de compreensão por parte do público e inserir cada vez mais a história da arte brasileira no contexto dos eventos internacionais que vêm sendo realizados no País.
O MAM mostra ainda, numa pequena sala, uma série de 12 fotografias de German Lorca, recentemente doadas ao museu pelo fotógrafo, prestando assim uma homenagem ao artista e reafirmando seu desejo de tornar-se um centro de referência de arte moderna e contemporânea brasileira.


