Apesar do jeito frágil, visual retrô, pele alva e aparência de ''biscuit'', Débora Falabella sempre imprimiu força e uma certa petulância aos personagens que interpretou. Essa ambivalência traz equilíbrio e imprime personalidade aos papéis de destaque que esta atriz, de 31 anos, coleciona na tevê desde que estreou como a inquieta Antônia em ''Malhação''. De lá para cá, esta mineira de Belo Horizonte colecionou tipos fortes em novelas e minissérie. No entanto, em seus 15 anos de carreira, Débora ainda não havia interpretado uma vilã ou feito qualquer personagem com vertente cômica. Mas, em seu primeiro trabalho após o nascimento da filha Nina, há 10 meses, a atriz volta à tevê unindo estas duas características na pele da maquiavélica e ruiva Beatriz, em ''Escrito nas Estrelas''. ''Ela é uma mau-caráter, não vale nada. Mas tem um lado cômico forte para contrabalançar'', adianta.
Em 15 anos de carreira na tevê, você nunca interpretou uma vilã. Por que demorou tanto?
Acho que já fiz muita coisa e fui deixando a carreira me levar mesmo. Não pintou uma personagem assim antes. Queria muito não só fazer uma vilã, mas uma personagem voltada para a comédia e papéis diferentes do que já tinha feito. Estava sempre na mesma linha de trabalho. É desafiador poder brincar em cena e pirar nas loucuras com uma atriz que também se propõe a isso, como a Zezé Polessa. A gente não improvisa muito no texto, mas nas ações.
Estrear numa vilã cômica traz leveza e ameniza a maldade?
Acho que ameniza mesmo. Foi bom fazer essa primeira vilã na tevê dessa forma, porque vilão é um personagem muito pesado, você acaba mexendo com situações mais carregadas. Ela é malvada, mas joga para o humor, as coisas que ela faz dão errado. A novela tem uma suavidade.
Onde você buscou referências para essa composição?
Ela me traz possibilidades de brincar. A Beatriz é ''over'' em tudo e isso é muito legal porque me lembra a maneira de trabalhar no teatro. Com ela, posso trazer um tom a mais para a tevê sem receios. Ela também é uma mulher atual, uma menina ''fashion victim'', mas é uma vilã. A vejo muito mais como uma vilã de série de tevê americana do que como uma vilã clássica do cinema. Sempre que vou fazer uma composição para uma personagem, acabo assistindo a muitos filmes para ter referências. Mas, nesse caso, assisti a muito mais séries que filmes. Ela tem essa pegada de vilã com muito humor.
O centro da trama, além da inseminação com o sêmen de um falecido, aborda a vida após a morte com um foco no espiritismo. Como você lida com essa questão?
Sou de uma família católica e sigo os princípios dessa religião. Mas a novela fala de uma coisa maior, do amor além da vida, do elo entre as pessoas. Mas a minha fé está em acordar todos os dias e olhar para o rosto da minha filha Nina, que está com 10 meses. Aí é que está minha espiritualidade. O engraçado é que todo elenco fez laboratório em centro espírita. Eu fui para a Oscar Freire (rua de comércio sofisticado na região nobre da cidade de São Paulo).
Apesar de sua aparência frágil e delicada, você sempre atuou em personagens fortes, audaciosas, mesmo as mocinhas mais pacíficas. A que você atribui sempre ser escalada para papéis com atitudes que destoam do seu biotipo?
A minha grande onda como atriz é mostrar tudo o que não sou numa personagem. É representar em todo o sentido da palavra. Nem sempre tenho essa autonomia na tevê, onde a gente precisa trabalhar com o que nos oferecem, na maioria das vezes. Mas, como também trabalho sempre muito em teatro e tevê ao mesmo tempo, tenho mais oportunidades de me mostrar das formas mais diversas. Percebo que minhas mocinhas também são muito fortes, como a Sinhá, de ''Sinhá Moça'', que está sendo reprisada. Adoro essas personagens de época fortes.
Por quê?
Me identifico muito com tudo que é antigo, desde roupas, músicas, decoração. Toda vez que me pego pensando nos meus gostos, tenho referências de época, como músicas antigas, filmes antigos, roupas que parecem ser antigas. Talvez eu pense que o passado era mais interessante. Adoro as décadas de 50, 60. Me acho muito de época.

mockup