Paulo Polzonoff Jr.
De Curitiba
Houve um tempo em que cinema francês era sinônimo de qualidade incontestável. Diretores como Godard e Truffaut, para citar só dois nomes, eram uma bênção para aqueles que iam ao cinema com um propósito a mais do que o simples divertimento. Mas a França não é mais a mesma e, consequentemente, seus filmes mudaram. É claro que ainda há o charme da língua, sempre bela em seu natural pedantismo, e da fama consumada ao passar dos tempos, coisa que não se apaga assim de uma hora para outra. Uma das qualidades apontadas por muitos no filme ‘‘A Vida Sonhada dos Anjos’’ (La Vie Rêvée des Anges, 1998) é a proximidade com a vida real. O que, convenhamos, não é novidade no cinema moderno, tampouco virtude em si. É, antes, sintoma de esterilidade criativa.
O enredo é básico. Isa (Élodie Bouchez) é uma menina pobre que chega a Paris atrás de um amigo que está na Bélgica a trabalho. Sozinha na Cidade Luz, ela se dispõe a trabalhar como costureira. Na confecção, acaba fazendo amizade com Marie (Natacha Régnier). As duas passam, então, a morar juntas, na casa de uma família que sofreu um acidente automobilístico. Isa e Marie se envolvem com dois leões-dechácara de uma boate e vão, assim, construindo uma amizade que tem tudo para ser duradoura. Mas as personalidades de Isa e Marie são conflitantes. A primeira é ‘‘descolada’’, segura e otimista, ao passo que a outra é tímida, insegura e com um pé no existencialismo pessimista. Enquanto Isa resolve ir visitar a menina que sobreviveu ao acidente, mas vive em coma, sobre a qual ela toma conhecimento através de um diário, Marie se envolve com um mauricinho, Chris (Grégoire Colin), que é a cara do Luciano Huck. O óbvio acontece: o mauricinho esnoba Marie, que esnoba Isa, que esnoba a menina em coma, que não tinha entrado na história.
Esta quadrilha fora de época mais parece um episódio de ‘‘Malhação’’, tomadas as devidas proporções. O diretor, Erick Zonca, não erra a mão. Mas também não poderia. Não há como errar com um tema batido desses. A câmera na mão, fremente, denuncia a intenção de um coloquialismo na linguagem, que não se sustenta. É incrível que se precise de dois roteirista, o próprio Erick Zonca e Roger Bohbot, para se criar este filme de minúscula complexidade.
‘‘A Vida Sonhada dos Anjos’’ tem, como todo filme francês que se preze, aquela pitada de sexo. E também aquela falsa rotina que se pretende a desglamourizada e acaba por criar outro tipo de glamour. Como todo filme ‘‘juvenil’’, há os palavrões de sempre e drogas. Como o tema acaba caindo na mesmice dos conflitos adolescentes, há lágrimas, muitas lágrimas.
Gostaria de dizer que salvam o filme as atuações de Élodie Bouchez e Natacha Régnier, mas não posso. O tipo de papel que elas fazem é de uma obviedade irritante.
Saudades de Truffaut, que morreu há quinze anos, no dia 21 de outubro de 1984. Sua lacuna, percebe-se, é enorme. E Godard, no mais completo ostracismo, já não tem mais fôlego para preencher o cinema de seu país com seu discurso filosófico-poético. Sinal dos tempos...

mockup