Malditos invadem a Bienal

Telma Elorza
Ninguém duvida que a Bienal Internacional do Livro, que acontece até o dia 10 de maio, em São Paulo, seja um excelente veículo de divulgação de livros e da difusão do hábito da leitura. Para comprovar este fato, basta observar o público que frequenta o evento. Só no primeiro dia - 1º de maio - foram 120 mil pessoas percorrendo os corredores do Expo Center Norte. Cada uma levava em mãos pelo menos um exemplar de algum dos títulos comercializados pelos 815 expositores.
Mas a Bienal tem um aspecto negativo. Ela - o evento em si, não os organizadores - privilegia as editoras com um grande poder de mídia. Ou que tenha um livro sobre ou de uma figura pública. Se esta figura aparecer então para autografar o livro, com certeza a editora que o trouxe vai ter seu estande literalmente invadido pelo público.
Se por um lado isto é bom para o evento - já que gera público - por outro cria um sério anacronismo. Escritores e autores importantes para a cultura se vêem, na maioria da vezes, relegados a um segundo plano, suplantados pela biografia extremamente precoce de uma banda de rock ou de um apresentador de TV.
Foi o que aconteceu no último sábado, quando o apresentador Carlos Roberto Massa, o Ratinho, autografou seu livro, ‘‘Coisa de Louco!’’ (L&PM) (leia texto nesta página). Uma fila enorme se formou horas antes do horário programado para o apresentador chegar ao Expo Center Norte. No mesmo período, Wally Salomão, autografando seu novo livro de poemas ‘‘Lábia’’ (Rocco), atendia uma dúzia de conhecedores.
O global Nelson Motta, com seu ‘‘Confissões de um Torcedor’’ (Objetiva), também atendeu a muita gente assim como a deputada e sexóloga Marta Suplicy, lançando seu ‘‘Sexo para Adolescentes’’ (FTD). Enquanto isso, o português Jorge Couto, um dos maiores especialistas em História do Brasil, amargava uma quase solidão no estande de Portugal, o mesmo acontecendo com Marília Barbosa da Silva, Renato Tapajós, Luiz Roncari e Maria Celina D’Araújo, entre outros tantos que passaram quase anonimamente pela Bienal.
Sem dúvida, este é um triste panorama da cultura brasileira quando se sabe que o brasileiro compra, em média, dois livros por ano, segundo dados da própria Câmara Brasileira do Livro, organizadora da Bienal. ‘‘Coisa de Louco!’’ vendeu, em um único dia, mais de 1.200 exemplares (com o mesmo número de autógrafos distruíbos por Ratinho, no sábado) e vai estar em bancas de jornal de todo País. Qual será o outro título que estes brasileiros vão ler este ano?

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