MALDADE CHEIRA MAL
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de fevereiro de 2001
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha 2 
Você pode não acreditar, mas não são apenas os anjos que protegem as crianças. Também existem outros seres mágicos empenhados na tarefa. Existem, por exemplo, seres chamados risadinhas, que estão sempre empenhados no trabalho de fazer com que toda criança seja tratada de maneira justa.
São raras as pessoas que já viram um risadinha. Assim como os anjos, eles são muito ariscos. São pequeninos, um palmo de altura, como bebês peludos. Mudam de cor com grande facilidade de acordo com o local em que se encontram, como os camaleões.
Onde há criança, há risadinhas. Eles seguem as crianças em todos os lugares para ver se elas estão sendo tratadas de maneira justa e bondosa pelos adultos. Estão atentos às injustiças cotidianas praticadas pelos adultos, maldades como a mandar a criança dormir com fome, obrigá-la a comer um prato de jiló, assustá-la com segundas intenções, soltar um pum e colocar a culpa nela, chamá-la de burra na sala de aula e muitas outras coisas.
Se os risadinhas encontram algum tipo de injustiça, aplicam no adulto o que chamam de tratamento: fazem o culpado pisar em cocô de cachorro. Pode parecer estranho. Pode parecer nojento e fedido, mas é exatamente o que fazem, como uma espécie de castigo.
Os risadinhas fazem tudo calculado. Recolhem cocô de cachorro e levam para o lugar onde o adulto, que deve ser castigado, costuma passar. Colocam o cocô no chão e ficam esperando o momento exato da meleca. Quando isso ocorre, riem até ficarem sem fôlego, de barriga doendo.
Esse seres malucos são uma criação do escritor irlandês Roddy Doyle. Eles povoam Os Risadinhas, sua primeira aventura pela literatura infantil/infanto-juvenil. Lançado pela Editora Estação Liberdade, o livro é uma deliciosa história com muito nonsense - absurdos - coroada como um suspense brincalhão.
Com ilustrações de Brian Ajhar, a história está centrada num equívoco. Certo dia os risadinhas cometem um erro. Tudo começa quando um senhor chamado Mack coloca de castigo seus dois filhos, os garotos Jimmy e Robbie. Após terem quebrado a vidraça da cozinha num jogo de bola - a sétima vidraça quebrada do mês -, os meninos são mandados para o quarto sem direito ao jantar. Os risadinhas de plantão entram em ação juraram vingança conta o senhor Mack. Eles têm certeza que os garotos não tinham a intenção de quebrar a vidraça, ocorreu apenas um acidente.
Pois bem, na manhã seguinte quando o senhor Mack sai de casa para o trabalho, um grupo de risadinhas instalam a armadilha de cocô. Na verdade não sabiam que o pai dos garotos, minutos após aplicar o castigo, voltou a trás e, num ato de justiça, aboliu a pena.
Ficam sabendo disso apenas quando o senhor Marck está a alguns passos da tragédia. Ao perceberem o erro, os risadinhas se empenham em evitar que o homem afunde seus pés no monte de cocô de cachorro. Para isso pedem ajuda dos meninos, Jimmy e Robbie, e do cachorro Rover, responsável pela matéria-prima do castigo. Rover tinha fama de produzir o cocô mais poderoso do bairro, chegava até a ganhar uns trocados dos risadinhas pelo produto.
Na aventura de evitar que senhor Mack pise, injustamente, na armadilha, os fatos mais absurdos acontecem. Na corrida contra o tempo, o espaço ganha uma proporção infinita. O leitor acompanha, com aflição e humor, cada episódio inusitado esperando a resolução do drama.
Roddy Doyle, autor de romances adultos como Paddy Clarke Ha Ha Ha (1997) e O Furgão (1998), escreveu Os Risadinhas a partir de um fato real. Todos dias, quando saia de casa para comprar pão, tinha que ficar atento para não pisar nos cocôs de cachorro que inundavam as calçadas.
Com imaginação e bom-humor criou a história original, contando com uma certa ajuda infantil. Quando terminava cada capítulo, lia para seus dois filhos o resultado. Assim surgiam uma opinião aqui, uma crítica ali, uma idéia acolá. Roddy Doyle reescrevia o material a partir dessas encontros familiares. Assim surgiu Os Risadinhas, uma verdadeira montanha russa de surpresas.
Se você, depois de ler o livro, encontrar alguém com o sapato sujo de caca de cachorro, pode ter certeza que foi obra dos risadinhas. E se algum adulto fizer maldade ou injustiça contra você, não fique desesperado. Os risadinhas darão uma lição no sujeito. Colocarão, um hora ou outra, uma bomba intestinal de cachorro em seu caminho.
Os Risadinhas, de Roddy Doyle, Editora Estação Liberdade (telefone 11/3661-2881), ilustrações de Brian Ajhar, tradução de Anthony Cleaver, 122 páginas, capa dura, R$ 23,00.


