Malandro velho de guerra
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de setembro de 1998
Antônio Mariano Júnior 
O negócio é seguinte: Bezerra da Silva continua com a corda toda, com a língua afiada e com o partido alto servindo de meio de comunicação para mandar seu recado. E o recado da vez chama-se Eu tô de Pé, 24º disco desse pernambucano criado no morro do Cantagalo e que, como nos trabalhos anteriores, enfia o dedo sem dó nem piedade em alguma ferida social. Dessa vez ele volta a tocar na questão da maconha na bem sacada Garrafada do Norte cuja letra questiona as autoridades sobre o porquê da proibição da tal erva. A letra faz uma citação-homenagem ao grupo Planet Hemp e ao deputado Fernando Gabeira.
Eu tô Pé tem 14 faixas onde Bezerra da Silva além da contravenção, também destila sátiras e aborda outras questões sociais como os meninos de rua e os favelados. Aliás, a matéria-prima de suas canções ainda provém da favela. O que canta, como explica, é o reflexo direto do que vivem os menos favorecidos. Eu sou o porta-voz do povo, assumo isso- avisa. A seguir, os principais trechos da bem-humorada entrevista que Bezerra da Silva concedeu à Folha2 em que fala sobre malandragem, sua experiência com maconha e sobre um tal plano econômico cheio de agá que na gíria carioca significa mentira.
E aí, Bezerra, qual é o babado?
Bezerra da Silva - Tamos aqui lutando, né meu camarada!
Por que você optou pela música Eu tô de Pé para dar nome ao disco? Há algum recado por trás disso?
Bezerra da Silva - Várias pessoas me perguntaram isso. O nome foi dado pelo diretor artístico da gravadora, ele achou interessante. Eu até vou conversar com os autores da música e perguntar em que realmente eles se inspiraram...
Não lhe parece algo do tipo: olha, estou vivo artisticamente?
Bezerra da Silva - Eu até acredito que seja isso. Com certeza os autores devem ter ouvido alguma coisa... Você sabe como as pessoas são ignorantes... Tem a mídia e às vezes você não toca muito... Tem também a oposição. Alguma pessoa deve ter falado: Ih, o Bezerra tá caído, tá apagado e os autores ouviram isso e fizeram isso. Eu não tenho bem certeza se é isso só sei que ouvi, gostei e gravei.
Nesse disco você toca de novo na questão da maconha. Só que desta vez com menos picardia. Podemos dizer que em Garrafada do Norte você se posiciona favoravelmente à liberação da droga?
Bezerra da Silva - A Garrafada do Norte é o seguinte: teve aquele problema com o Planet Hemp, que foi preso em Brasília. E tem também o Gabeira (deputado Fernando Gabeira) com a tese dele de que a maconha é medicinal...
Certo, eu entendi a letra. Mas o que quero saber é se você gravou a música como uma maneira de se posicionar a favor da liberação da maconha...
Bezerra da Silva - Eu sou o seguinte... Nesse particular aí eu sou assim, escreve aí: eu nunca vi ninguém dar dois em nada e se eu vir tá tudo bem. Malandro é malandro, mané é mané. E malandro não cagueta, meu camarada!
Você fuma ou já fumou um baseado?
Bezerra da Silva - Eu já fumei uma vez só quando tinha mais ou menos 18 ou 19 anos. Eu ouvia falar muito que o cara que fumava maconha virava bicho, comia garrafa, essas coisas. Eu ouvia o pessoal no morro falar isso e perguntava; Pqp, que p... é essa. Um dia estava todo mundo fumando e eu fui experimentar.
E daí?
Bezerra da Silva - Maldita hora. Depois que dei uns puxões naquela p... me deu uma vontade de rir, uma fome desgraçada que me fez comer pão seco, peguei no sono e quando acordei parecia que havia levado uma coça daquelas. Cocaína também cheirei uma vez aquela p... Você não come, não dorme, não faz p... nenhuma. Experimentei e até hoje digo: infeliz de quem é viciado. É um doente.
Podemos dizer que Presidente Cara-de-Pau é um recado bem direto ao FHC? A letra fala de um certo plano Agá...
Bezerra da Silva - A palavra agá é um gíria que quer dizer mentira. E calhou que o nome dele é Fernando Henrique... Mas agora, quando eu canto esse plano agá quero dizer esse plano mentiroso que engrupiu de novo o povão, que vai acabar com a inflação... Como ele é mentiroso, ele mente na cara-de-pau e vai à televisão dizer que acabou a inflação... Além de mentiroso ele acha que todo mundo é burro porque agora que acabou a inflação ele vai entrar no negócio de desemprego. Eu não sei com que inflação ele acabou, você sabe? A qual inflação ele se refere? Porque os bancos estão cobrando os juros que querem, a caderneta de poupança tá rendendo um por cento ao mês... Eu viajo o Brasil de Norte a Sul, vejo a fome e a miséria. Ele (FHC) é um governo para os capitalistas, bicho!
Em seus discos você sempre se preocupou com a crítica social, né?
Bezerra da Silva - Eu escolho... O favelado, o cara que vive na periferia, o trabalhador que escreve para mim vivem na miséria, passando fome. Os filhos deles não têm escola, não têm hospital, não têm nada e ainda vivem discriminados. O favelado, não sei se você sabia, não é considerado gente; é considerado um elemento nocivo à sociedade.
E você se sente um porta-voz dessas pessoas?
Bezerra da Silva - Eu sou sim, eu sou porta-voz do povo mesmo. Eu assumo isso.
Aliás, vamos deixar bem claro: esse negócio de malandragem que você tanto canta é marketing ou você se considera também um porta-voz musical da, digamos, categoria?
Bezerra da Silva - Não, eu não canto malandragens. Esse é um negócio muito mal-entendido. Eu canto a realidade de um povo faminto e marginalizado. Não existe malandro pobre. Malandro é malandro e pobre passa fome. Eu nunca vi malandro pobre.
Mas o significado da palavra malandro mudou muito...
Bezerra da Silva - Bicho, o pessoal não sabe o que quer dizer malandro. Malandro quer dizer inteligente. Malandro não tem nada a ver com vagabundo... Então disse a palavra malandro pra tumultuar porque existe 70 por cento de analfabetos no Brasil... Malandro quer dizer pessoa inteligente. Agora, tem gente por aí querendo dizer que malandro é o cara que rouba, que fuma maconha, que não sei o quê... Não tem nada a ver. Esses são vítimas de uma sociedade famigerada.
Certo, mas...
Bezerra da Silva - Já fizeram uma série de sugestões contra mim nas revistas e nos jornais dizendo que eu sou cantor de bandido, que eu vou entrar em cana, que é apologia... Pra mim não estão dizendo p... nenhuma. Estou c... pra quem diz isso. Enquanto eu tiver vivo eu canto o que quero porque vivo num país democrático onde existe liberdade de expressão. Não sou analfabeto do jeito que eles estão pensando. Não tenho curso superior mas não assino atestado de burro.
Como é que você define o seu gênero musical?
Bezerra da Silva - Eu sou partideiro, eu canto partido alto. Não tem esse negócio de pagode, não tem esse papo. Eu sou partideiro da pesada ainda por cima. Com diploma que eu tirei no morro do Cantagalo, onde vivi.
E qual o segredo do seu sucesso?
Bezerra da Silva - É porque eu gravo compositores de verdade, eu não gravo nomes, eu gravo músicas. O meu repertório quem escolhe sou eu e o meu disco quem faz sou eu. Ninguém se mete nisso. Se alguém se meter não tem disco.
Você é um cara feliz, Bezerra?
Bezerra da Silva - Eu sou e vou lhe explicar o porquê. Sou um cidadão de bem, honesto, um cidadão que nunca praticou nada errado. Sou um cidadão que tem um folha penal exemplar que se chama nada consta. Nunca explorei ninguém, nem enganei ninguém. E sou feliz porque não tenho papas na língua e não tenho rabo preso com ninguém. Sou feliz, acabou, é isso.
Obrigado, Bezerra, sucesso...
Bezerra da Silva - Nada. Escuta, meu amigo, eu nunca estive em Londrina. Faz um favor, bota aí o meu telefone de contato que é (021) 255-1041 e 235-5371. Tratar com a empresária que é a Regina do Bezerra, a primeira-dama do samba. Ué, eu também tenho a primeira-dama...


