O recurso foi utilizado por Paulo da Portela, figura mitológica que, no início do século, acompanhava o desfile de seu cordão carnavalesco vestido com um terno branco. A roupa era uma tentativa de afastar a fama de malandragem e sujeira que era incutida aos moradores do morro, ao mesmo tempo que ressaltava a autoridade do sambista. O terno branco se tornou a indumentária do malandro, divulgada por décadas na figura de Moreira da Silva.
Mas a malandragem de Moreira, o Kid Morengueira, estava mais para folclore que navalhadas. Com Moreira se vai também um pouco da história do samba. Ele se dizia o inventor do samba-de-breque, surgido por acaso em uma apresentação na qual resolveu encaixar comentários durante pausas – a versão é questionada pelo pesquisador José Ramos Tinhorão.
O samba-de-breque é acentuadamente sincopado, com pausas que permitem complemento falado ou cantado, geralmente em tom de bom humor. Esses discursos ou complementos são improvisados, e muitas vezes obedecem à cadência da composição. Moreira da Silva transformava breques em discursos de até cinco minutos.
Inventor ou não, Moreira da Silva foi o grande expoente do gênero que defendeu desde meados da década de 30. Ao contrário do malandro que eternizava, porém, Antônio Moreira da Silva deu duro, trabalhou em fábrica de meias, dirigiu ambulância, foi candidato a vereador, cantou serestas, pontos de macumba e, enquanto os sambistas tentavam mostrar erudição nas letras, aplicou gírias cariocas.
Sua malandragem estava mais na lábia que nas ações, e mesmo gravando desde 1931, nunca fez um grande pé-de-meia – era funcionário aposentado pelo Estado do Rio de Janeiro. Moreira da Silva foi um personagem, o Kid Morengueira, apelido surgido numa sátira aos filmes de faroeste. Um malandro bem-humorado, mistura de católico e macumbeiro, que achava que vender ou comprar música não ofendia ninguém.
Com o tempo, largou a boemia para assistir à televisão – tinha medo de sair de casa por causa dos assaltos. Era um malandro às avessas, falsificado, boa-praça, que não viveu a marginalidade. Seu casamento com Mariazinha (Maria de Lourdes) durou 56 anos, até a morte dela.
Um de seus maiores sucessos é ‘‘Fui a Paris’’ (Moreira da Silva/Ribeiro Cunha), mas o compositor chegou ‘‘no máximo a Portugal’’, como costumava dizer. Outros destaques foram ‘‘Acertei no Milhar’’ (Wilson Batista/Geraldo Pereira), ‘‘Na Subida do Morro’’ (Moreira da Silva/Ribeiro Cunha) e ‘‘O Rei do Gatilho’’ (Moreira da Silva/Miguel Gustavo).
Ao lado de Dicró e Bezerra da Silva, lançou em 1995 ‘‘Os 3 Malandros in Concert’’, uma paródia a ‘‘The 3 Tenors in Concert’’, de Pavarotti, Carreras e Domingo.
Moreira da Silva se manteve em atividade até pouco antes de morrer. Mesmo com a voz enfraquecida, ainda não se aposentara musicalmente. Considerava o trabalho importante e sua malandragem um estereótipo ligado à música que fazia. E insinuava a existência de outros malandros, bem piores, a circular de terno por aí.

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