''Mal'' português tem a marca da decadência
Mal português tem
a marca da decadência
Se toda seleção de todo festival que se preze tem que ostentar um título para escárnio e a repulsa geral, o deste ano em Veneza é Mal, representante português dirigido por Alberto Seixas Santos. Um deslocado apocalipse de fim de século, um mundo sem esperança mostrado através de uma narrativa descontínua, um roteiro mal escrito, mal interpretado, involuntariamente cômico. Não é possível que a produção em Portugal esteja assim tão decadente. O país que viveu dias de glória recente nas telas do Lido com A Comédia de Deus (João Cesar Monteiro) sai visivelmente diminuído da mostra. E o que é pior, parte do milhão e meio de dólares é dinheiro brasileiro captado pela Quimera Filmes(?), através da Lei do Audiovisual do Ministério da Cultura.
Também na competição, com três filmes e meio (contando a co-produção com a Bélgica em Uma Ligação Pornográfica), a França se coloca discretamente com Pas de Scandale, de Benoõt Jacquot. Como convém a considerável porção do cinema francês, blasé, deslocado em limites de tempo e espaço, o filme se fecha num círculo vicioso. Jeancour, industrial da alta burguesia parisiense, acaba de deixar a cadeia. Não se sabe com certeza, mas envolvimento com corrupção é forte suspeita. Os quatro meses na cadeia mudam o industrial. Na volta à casa, sente-se um estrangeiro, com a família, os amigos, com tudo ao redor. Fecha-se em mutismo e reflexões. O único relacionamento que surge mais autêntico é com a jovem cabeleireira da mulher, a quem conhece por acaso. E Pas de Scandale caminha por aí, sem muito a dizer, com seu ritmo arrastado e sua eficiência narrativa comprometida pelo excesso de maneirismos de uma direção que somente não põe tudo a perder porque o elenco - Fabrice Luchini, de olho na Copa Volpi de melhor ator - sustenta com bravura um roteiro frouxo.
E a China continental, quem diria, sempre com imagens tão interessantes, mostrou como primeiro trunfo o mais recente Zhang Yimou, o insípido Nenhum a Menos. Difícil descobrir aqui o ótimo Yimou de Lanternas Vermelhas ou Qiu Ju, fortes libelos feministas. Inexplicavelmente burocratizado, Yimou escolheu um tema que se inscreve numa espécie de oficialismo programático, algo assim como propaganda partidária: a escola pública e suas dificuldades nos confins da vastidão chinesa. Um pequeno e anônimo feito heróico dá bem a dimensão da proposta e do envolvimento, digamos, patriótico, da realização. Uma jovem professora exercita seu aprendizado de cidadania ensinando um grupo de crianças de uma vila distante. Um dia, um aluno decide fugir para cidade grande. Enfrentando uma série de dificuldades, a professora sai à procura. Obstinada, incansável, ela acaba encontrando sua ovelha desgarrada com o auxílio da televisão, que explora como pode as possibilidades comunitárias da recuperação do aluno dissidente.
Não há como afastar a incômoda impressão de que estamos diante de um novo Zhang Yimou, recuperado, reprocessado, reprogramado, pronto a dar sua contribuição para a boa causa oficial. Resta agora esperar o outro chinês, por coincidência outro Zhang, o Yuan, que aparece hoje em competição com Dezessete Anos.
E também em concurso, mais um rito de passagem na filmografia do sueco radicado nos Estados Unidos, Lasse Hallstrom, o terceiro depois de Minha Vida de Cachorro(85) e Whats Eating Gilbert Grape ?(93). Baseado em romance de John Irvin, com roteiro do próprio, The Cider House Rules é uma cuidadosa produção americana da Miramax, com bom elenco, boa história, excelente suporte de marketing (não por acaso o filme está em competição) mas com chances reduzidas de aspirar a recompensas maiores. The Cider..., ainda sem título em português ou lançamento definido no Brasil, é a história do jovem Homer, criado por um médico num orfanato onde paradoxalmente a prática do aborto convive em harmonia com crianças órfãs criadas com amor e dedicação. Homer, embora educado e preparado para qualquer procedimento cirúrgico ou para gerenciar o orfanato, decide buscar na experiência do mundo lá fora algumas respostas. Trabalha duro, se apaixona, se desencanta, aprende algumas lições de vida, conclui o percurso, é adulto. Mas o círculo deve se fechar. Algumas situações do argumento - aborto, incesto -, embora pertinentes, podem alterar os planos da Miramax com relação à corrida ao Oscar 2000. Mesmo que o filme não obtenha todas as indicações que a companhia deseja, pelo menos o veterano Michael Caine, excepcional, deve se qualificar para uma nominação como coadjuvante.





