Nelson Sato
De Londrina
A aura de maldito se perpetua. É a ameaça que paira sobre Arnaldo Baptista com o segundo disco gestado nos porões alternativos em sua homenagem. Desta vez, suas canções são revisitadas por bandas de Brasília no CD ‘‘Onde é que está o Meu Rock’n’roll’’, que chega às lojas pelo selo Dabliú.
O disco foi produzido por Mário Pacheco, um fã que há quatro anos publicou uma biografia do artista. O repertório reúne baladas, rock e funk. Traz 15 músicas, cinco delas inéditas. Arnaldo assina a maioria das faixas, com exceção de quatro composições feitas em parceria com seu irmão Sérgio Dias e Rita Lee quando ainda formavam os Mutantes.
Figura legendária, Arnaldo pode involutariamente concorrer ao Guiness Book como o músico que mais recebeu discos-tributo em vida. Há dez anos, o álbum ‘‘Sanguinho Novo’’ já lhe prestava as honras reunindo bandas como Sepultura, Fellini e Ratos de Porão. Transformado em mito, ele vive o ostracismo com sua mulher (Lucinha Barbosa) num sítio em Juiz de Fora (MG).
Mudou-se para lá em 1984, depois de ficar em coma após saltar do terceiro andar do Hospital do Servidor Público, de São Paulo, onde estava realizando exames psiquiátricos. Nos Mutantes atuou de 1966 a 1976, desenvolvendo depois uma carreira solo errática gravando três álbuns solo (‘‘Lóki’’ em 1974, ‘‘Singin’ Alone’’ em 1980 e ‘‘Disco Voador’’ em 1987).
Na década passada, lançou ainda dois discos com a banda Patrulha do Espaço, além de fazer shows esporádios em São Paulo, Rio e Juiz de Fora. Durante todo esse período de retiro, divide as horas de ensaio no estúdio caseiro de oito canais com a pintura de quadros e camisetas e o exercício da literatura.
Ele ouviu e gostou do novo disco-tributo (leia entrevista abaixo). Segundo o produtor Mário Pacheco, a idéia do projeto era imprimir ‘‘um perfil radicalmente rock’’, já que ‘‘todo mundo que grava os Mutantes acaba diluindo o trabalho deles’’ – diz, referindo-se em particular à coletânea Triângulo Sem Bermudas, lançada há alguns anos pelo selo Natasha.
Em ‘‘Onde é que Está o Meu Rock’n’Roll’’, os grandes destaques ficam por conta da banda Low Dream (já extinta) com uma versão à la Velvet Underground de ‘‘Jesus Come Back to Earth’’ e o grupo Pravda com a abordagem funk-psicodélica da inédita ‘‘Imagino’’. O fiasco coube à regravação da também inédita ‘‘Garupa’’ pela cantora Célia Porto.
O tratamento MPBista, que inclui uma frase melódica de ‘‘Nosso Estranho Amor’’ (de Caetano Veloso), destoa das demais faixas. Na também inédita ‘‘Sr. Empresário’’, a banda Little Quail & the Mad Birds tenta recriar o mesmo timbre de bateria obtido na versão original da Patrulha do Espaço. A grande curiosidade do disco, porém, é a faixa instrumental ‘‘Dança de um Novo Tempo’’ interpretada pelo tecladista Bruno Wambier. Arnaldo a escreveu quando tinha 7 anos de idade. A seguir, leia a entrevista exclusiva que ele concedeu por fax ( pedido de sua mulher), à Folha2.
O que você achou desse tributo? Que versões ficaram mais bacanas? Você gostou mais desse tributo ou do ‘‘Sanguinho Novo’’?
Arnaldo Baptista: Esse tributo é ótimo, pois os valores de cada banda são mutantes em função da qualidade dos músicos, como por exemplo o baterista que gravou o ‘‘Sr. Empresário’’. El Justicero ficou muito boa, Tacape, e outras...Em relação a outros tributos achou que este ficou menos ibop, mais verdadeiro, ou seja, sem o objetivo único de vendagem.
Alguém fez contato com você para algum show de lançamento?
Talvez tenha um lançamento em Brasília, pois as bandas são de lá. Mas ainda não tem nada de concreto.
O tributo contém 5 músicas inéditas. Como foi a garimpagem dessas músicas?
As músicas inéditas contidas no tributo foram sementes plantadas por mim, num sentido musical e poético, que germinaram, cada qual com data e local de plantio diferente. ‘‘Dança de um Outro Tempo’’, por exemplo, eu fiz quando tinha sete anos.
Você anunciou uns três anos atrás que estava com um disco quase pronto, com doze composições já em fase de finalização e que se chamaria ‘‘Let It Bed’’. Em que pé ficou aquele projeto?
Este trabalho eu estou fazendo no meu tempo... Não tem data e nem previsão de quando lançarei.
O que você ouve atualmente? Você tem acompanhado os trabalhos do pessoal da sua geração e dos novos grupos? Algum disco deixou você empolgado recentemente?
Gosto de ouvir Diana Ross, Jack Bruce, Rush, West, Bruce & Laing, Duane Eddy, Led Zeppelin, etc... Gosto dos novos, mas não tenho hábito de ouvir.
Você vai a shows aí em Juiz de Fora? Tem feito contatos com outros artistas?
Vou a shows sem muita frequência. Recentemente fui ao casamento de meu irmão Sérgio, e encontrei-me com Lúcia Turnbull (parceira de Rita Lee em sua carreira solo, nos anos 70). Quando vou para São Paulo, tenho encontros e desencontros.
Você declarou em entrevistas que escreveu alguns livros e que estão engavetados. Do que eles tratam? São romances, poesias, visões...?
Meus livros são de ciência e ficção.
A gravadora Universal vai mesmo lançar o ‘‘Technicolor’’, o disco inédito que os Mutantes gravaram em Paris no começo dos anos 70? Você ouviu a fita, o que achou?
O lançamento está previsto para fevereiro de 2000. Esse disco possui uma ótima qualidade, é superior aos outros já lançados.
Você tem acompanhado o culto em torno dos Mutantes que está rolando na Europa e nos Estados Unidos? A que você atribui isso?
Os Mutantes são cultuados no exterior, creio eu, por ser a nossa música desprovida de nacionalidade.Chega às lojas o CD em que bandas de Brasília cantam músicas do ex-Mutantes, Arnaldo Baptista. Há cinco faixas inéditas
Agência EstadoArnaldo Baptista, que vive num sítio em Juiz de Fora (MG) desde 1984: ‘‘ReproduçãoArquivo FolhaLow Dream, uma banda já extinta, é um dos destaques do CD

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