Mais uma vez, Londrina fica na contramão do Carnaval
Cidade enfrenta cenário de retrocesso, marcado por falta de planejamento e indefinição sobre o futuro da festa; realizadores lamentam
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025
Cidade enfrenta cenário de retrocesso, marcado por falta de planejamento e indefinição sobre o futuro da festa; realizadores lamentam
Pamela Destacio/ Especial para a FOLHA 

A recente notícia de que Londrina não terá carnaval de rua com apoio público em 2025 chegou sem causar grandes surpresas. Afinal, este será o segundo ano consecutivo sem a festa oficial, justificada pela SMC (Secretaria Municipal de Cultura), há pouco mais de uma semana, com a ausência de espaços adequados e seguros para a população.
Nesta quarta-feira (26), o secretário de Cultura, Marcão Kareca, defendeu a posição da Prefeitura afirmando que a gestão realizou reuniões com diferentes setores da sociedade antes de tomar a decisão. Segundo ele, foram ouvidos produtores culturais, carnavalescos e empresários, além de forças de segurança, ex-secretários e servidores da SMC. O secretário também alegou ausência de verbas orçamentárias neste início de gestão.
“Considerando todas estas variáveis, chegamos à conclusão que não é possível fazer um grande evento organizado com segurança e conforto como deve ser para a população de Londrina e entorno”, afirmou à FOLHA. Ele garantiu, porém, que já começou a planejar o Carnaval de 2026, ouvindo representantes do setor para construir diretrizes, sem grandes exposições.
Apesar da promessa futura, a decisão reforça a sensação de que Londrina segue na contramão de outras cidades, que vêm investindo no Carnaval de rua como um motor cultural e econômico. O exemplo mora aqui ao lado: Cornélio Procópio espera atrair cerca de 100 mil foliões com quatro dias de shows na avenida principal e Maringá programou cinco dias de folia com uma agenda diversificada de blocos.
Enquanto vizinhos ampliam suas festividades e atraem foliões de diversas regiões, Londrina, com mais de 550 mil habitantes, assiste à sua festa minguar, sem perspectivas concretas de retomada.

CRÍTICAS À ARGUMENTAÇÃO
O pronunciamento do secretário de Cultura gerou reações de organizadores de blocos, carnavalescos, artistas locais e foliões. Nas redes sociais da FOLHA, integrantes do Bloco Bafo Quente, sem se identificar individualmente, contestaram a versão do secretário, afirmando que eles e outros representantes da festividade não foram procurados. O argumento é que os órgãos de segurança foram procurados primeiro gerando uma decisão antecipada que, na verdade, caberia à pasta.
“Ele conversou primeiro com os órgãos de segurança e depois com os produtores dos eventos. A gente participou da reunião porque fomos atrás, a gente ligou interessado, mas não houve um convite. Nunca pararam para perguntar nem para conhecer a nossa história ou saber o que acontece”, expõem à FOLHA.
Procurados, os membros do Bloco mais ativo da cidade afirmam que, ao longo dos 14 anos de Carnaval em Londrina com o grupo, o evento já aconteceu de diversas formas, inclusive em condições bastante simples, sem que houvesse registros de ocorrências policiais. Sendo assim, a decisão sobre o local e o formato do evento não deveria partir dos órgãos de segurança, mas sim da pasta da Cultura, enquanto as forças de segurança deveriam atuar apenas na garantia da proteção do público. “Na nossa visão, o que falta realmente é o incentivo e o suporte da administração, para abraçar a festa com afinco e torná-la possível”, afirmam.
A opinião também ganhou repercussão nas redes sociais, onde foi compartilhada junto a uma onda de críticas à decisão da Prefeitura. Nos comentários de publicações sobre o assunto, foliões manifestaram indignação com a falta de apoio ao Carnaval e a necessidade de buscar alternativas para aproveitar a festa, seja em eventos privados na cidade ou em municípios vizinhos que investem na celebração.
A FRUSTRAÇÃO DAS ESCOLAS
Em entrevista, José Ivo Justino Júnior, presidente da Escola de Samba Explode Coração, uma das mais tradicionais de Londrina, compartilhou sua frustração pelo mesmo motivo. Para ele, a resposta do secretário esconde um problema maior: a falta de interesse do poder público. “Essa questão de segurança, eu nem vejo como uma justificativa, eu vejo como uma desculpa mesmo, por não ter um argumento plausível”, destaca.
Ele questiona o fato de os representantes da escola terem sido chamados para uma reunião com a SMC em cima da hora, sem tempo hábil para negociar alternativas ou realizar uma melhor organização. O encontro, segundo ele, serviu apenas para oficializar o convite para a única apresentação da Escola de Samba Explode Coração neste ano, realizada no último sábado (22) durante o Pré-Carnaval da Vila do Circo, na Zona Norte de Londrina. Diferente dos anos anteriores, em que esteve presente com grandes apresentações, a escola não tem mais nenhuma data prevista na agenda para o carnaval de 2025.
“Nós estamos já habituados com isso, tanto é que as escolas acabaram. A gente tinha em torno de sete escolas de samba em Londrina; hoje, resta uma. Depois que acabou esse incentivo da Secretaria Municipal de Cultura para a parte do Carnaval, a gente sempre vem procurando formas de se manter vivo”, conta Júnior.
Outra figura emblemática do carnaval londrinense a manifestar insatisfação foi Joaquim Braga, o Braguinha, que tem acompanhado e participado ativamente da folia de Momo desde o início da década de 70. Hoje, ele vê com tristeza o esvaziamento de uma das maiores expressões culturais do País na cidade que escolheu para chamar de lar, em um processo que, segundo ele, já ocorre há anos. “Tem o ano todo para discutir, tem o ano todo para conversar, tem o ano todo para estruturar e para colocar, no projeto orçamentário, os recursos necessários para fazer o Carnaval da cidade”, aponta Braguinha, “se tem vontade política, a gente faz, a gente procura, a gente constrói”.

DO BRILHO AO APAGAMENTO
O Carnaval de Londrina tem uma história brilhante e resiliente, que atravessa décadas de transformações e desafios. Braguinha recorda com entusiasmo como a cidade já pulsava ao ritmo do samba quando chegou em 1969. No início da década de 1980, junto com seus irmãos, fundou a escola de samba Quilombo dos Palmares, da qual foi presidente por mais de dez anos – período considerado de ouro para a folia londrinense.
De lá para cá, Londrina foi palco de desfiles animados, começando pela Avenida Paraná antes da construção do Calçadão, passando pelas ruas Quintino Bocaiúva e Sergipe e Avenida Maringá. O público era massivo, chegando a reunir 20 mil pessoas nas avenidas, com famílias inteiras acompanhando os cortejos, ainda que sem a infraestrutura atual. O Autódromo Internacional Ayrton Senna também chegou a ser utilizado, nos anos 2000, para comportar o público, o espírito festivo e a diversidade cultural da cidade.
Entre 2013 e 2020, Londrina viveu outro período de efervescência carnavalesca – desta vez, impulsionado pela iniciativa da APD (Associação dos Profissionais de Dança de Londrina e Região Norte do Paraná) em parceria com o Bloco Bafo Quente. O auge aconteceu em 2019, quando o bloco levou um trio elétrico às ruas pela primeira vez.
A produtora cultural Danieli Pereira, coordenadora do projeto "Carnaval de Rua de Londrina – Bloco Bafo Quente", relembra que a iniciativa nasceu do desejo de promover uma festa democrática em espaços públicos e ganhou força com o apoio do Promic (Programa Municipal de Incentivo à Cultura). "Esperávamos umas 10 mil pessoas, mas tivemos um público de 25 mil. Todos os registros que a gente tem são de muita euforia e alegria, de poder estar na rua atrás de um trio elétrico, em pontos que são turística e afetivamente importantes e queridos por nós”, conta. O cortejo teve início no Anfiteatro do Zerão, percorreu a Avenida Higienópolis e seguiu até o Aterro do Lago Igapó.
“Foi realmente a concretização de um sonho, e a gente percebeu que esse sonho não era só nosso, mas de toda a cidade. Tinha desde crianças correndo atrás do trio, até jovens e idosos, que prepararam suas camisetas, seus abadás, suas fantasias e ocuparam a rua para se divertir”, recorda Pereira.
Nos últimos anos, no entanto, o carnaval de Londrina perdeu força. Embora o evento de 2023, realizado no Jardim Botânico, tenha atraído cerca de 30 mil pessoas, esse engajamento não foi suficiente para garantir a festa em 2024, que foi adiada e posteriormente cancelada. Já a de 2025 sequer entrou no planejamento da gestão.
Diante da promessa da Secretaria de Cultura para 2026, fica a pergunta: será o suficiente para reverter esse cenário ou Londrina seguirá perdendo suas manifestações culturais?


