MAIS UM LEGADO DE GONZAGÃO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 05 de junho de 2001
Nelson Sato De Londrina 
Que lugar ocupa a obra de Luiz Gonzaga na tradição inventiva da música popular brasileira moderna? A pergunta mereceria teses, mas o legado do rei do baião permanece à margem da curiosidade crítica de estudiosos, excetuando o trabalho solitário de José Ramos Tinhorão.
Foi este quem assinalou o pioneirismo de Gonzagão na alquimia musical que resultou no baião nordestino, embora duvidasse de sua exclusividade reivindicada pelo artista na criação do trio zambumba-triângulo-sanfona, que estaria presente já em conjuntos típicos do princípio do século 20.
Toda essa discussão volta à tona com o lançamento do CD Luiz Gonzaga ao Vivo Volta pra Curtir, disco inédito que a BMG garimpou nos arquivos para dar largada às comemorações dos 100 anos do selo RCA Victor, incorporado em 1986. Depois de Gonzagão, estão previstas reedições de Jamelão, Luiz Bonfá, Ivan Lins, Miúcha & Tom Jobim, Cassiano, Cartola, Wilson Simonal, João Donato e Trio 3D.
Volta pra Curtir, o título do CD do velho Lua (apelido que ganhou do ator Paulo Gracindo na célebre Rádio Nacional), era o nome da temporada de shows que ele e seu grupo levaram ao palco do Teatro Tereza Rachel, em março de 1972. O local era templo da geração-desbunde e hiponga da zona sul carioca. Pouco antes abrigara o show Fa-tal, de Gal Costa.
Na época, Gonzaga desfrutava de prestígio no sudeste, recuperado que fora pelos tropicalistas depois de anos no ostracismo. Na platéia, nomes como Caetano Veloso, Glauber Rocha, Gilberto Gil, Gal Costa, Jards Macalé, Wally Salomão, Maria Bethânia, Torquato Neto e Jorge Mautner reverenciavam o sanfoneiro revezando-se entre as poltronas.
O show tinha direção de Jorge Salomão, que também assinava o roteiro com Capinam. Gonzaga era acompanhado por Dominguinhos na sanfona; Maria Helena na voz, triângulo e cabaça; Toinho no triângulo, Renato Piau na guitarra; Porfírio Costa no baixo; Raimundinho no reco-reco; e Ivanildo Leite na zabumba, gonguê e triângulo.
O CD resgata toda a atmosfera dos shows, com o artista desfiando histórias entre as músicas, como quando conta um causo onde Lampião sofre um castigo de Padre Cícero por ter entrado em Juazeiro do Norte sem sua permissão. O então ministro da Justiça, Armando Falcão, é identificado na platéia e homenageado pelo artista.
Falcão, que passou à história por sempre responder às perguntas com um nada a declarar, foi figura fundamental na trajetória de Luiz Gonzaga. Ele ainda era um estudante de Direito na década de 30, quando deu um puxão de orelhas no músico para que este trocasse o repertório baseado em peças orquestrais americanas e valsas vienenses que tocava nos cabaré da Lapa e nos bares do Mangue, ambos no Rio por ritmos autenticamente brasileiros.
Gonzaga, que vivia de gorjetas, atendeu o pedido semanas depois. Chamou dois amigos, um para tocar triângulo e outro a zabumba, e compôs algumas músicas de apelo regional. O sucesso foi grande. Esboçava-se ali o que viria a ser o embrião do baião nordestino. Com o tempo, vieram os discos instrumentais, os sucessos cantados e o domínio completo do gênero.
As letras, compostas pelos parceiros, transfiguravam a poesia primitiva do sertão. Se os versos dos trovadores e repentistas eram povoados de reis, rainhas, paladinos, princesas virgens e cavaleiros medievais, o universo que Gonzaga cantava embutia sagas de cangaceiros, passageiros de pau-de-arara e morenas sensuais.
Mas depois de uma década de reinado, Luiz Gonzaga seria atropelado pela Bossa Nova e pela universalização do rock. Sua obra só seria redescoberta com o Tropicalismo, no final dos anos 60, a partir de uma regravação de Asa Branca por Caetano Veloso. Os shows no Teatro Tereza Rachel, registrados agora em CD, encontram Gonzagão numa temporada imediatamente posterior e em plena lua-de-mel com o mercado fonográfico.
O repertório resgata suas parceiras com Humberto Teixeira (1916-1979), José Dantas (1922-1962) e outras menos prolíficas. Contém clássicos como Meu Pé de Serra (primeira parceria com Humberto Teixeira), Assum Preto (também com Teixeira e cujo arranjo camerístico rivalizaria com os de música erudita, segundo as palavras de Tinhorão), O Xote das Meninas (com Zé Dantas) e Boiadeiro (Armando Cavalcante e Klecius Caldas).
O encarte inclui um texto de apresentação do crítico Sérgio Cabral e comentários adicionais de Caetano Veloso, Jorge Salomão, Leon Hirszman, Luciano Figueiredo e Oscar Ramos. O CD chega às lojas simultaneamente à primeira temporada paulistana do espetáculo O Vôo da Asa Branca, dirigido por Deolindo Guegochi e que narra a trajetória do artista em linguagem de cordel.
Também antecipa o lançamento de um songbook da alteza, que está crepitando nos fornos da editora Irmãos Vitale. O livro O Melhor de Luiz Gonzaga vai reunir partituras para piano e violão de 31 músicas de sua obra, além de prefácio e uma pequena biografia de autoria de Roberto Moura. Deve sair até o final desse mês.


