Mais um balaio de samba
Antônio Mariano Júnior
Enquanto tiver boa aceitação, ou melhor, enquanto estiver vendendo bem a série continua. Por esse simples motivo é que a gravadora Universal está colocando nas prateleiras o Casa de Samba 3 que reúne compositores da nova e velha guarda para cantarem juntos e ao vivo pagode, partido alto, samba-canção, sambão, sambinhas e afins. As duas primeiras edições do projeto, dirigido por Rildo Hora, atingiram juntas a vendagem de 500 mil cópias.
Casa de Samba 3 rende bons momentos. Bons encontros. Algumas boas releituras. O principal destaque fica por conta de Walter Alfaiate e Leila Pinheiro (livre, leve, solta, puxa vida, quem diria, hein?!) na fantástica Sacode, Carola (Hélio Nascimento-Alfredo Marques).
Há também de se tirar o chapéu para Caetano Veloso que mais uma vez surpreende ao recriar canções de outros autores. É ele quem abre o disco com Verdade (Nelson Rufino-Carlos Santana), sucesso de Zeca Pagodinho, cantando com uma insegura Gil, vocalista da banda beijo. Mas ao imprimir estilo e categoria a essa música, o velho baiano abafa o canto gélido e inseguro da conterrânea e coleguinha de microfone.
Um detalhe curioso do disco: alguns desavisados podem até achar que Caetano Veloso também canta com Nelson Sargento a antológica Cântico à Natureza (Nelson Sargento-Jamelão). Não é. Na verdade, é Chico César que, por causa da tonalidade alta da música, ressalta (para seu próprio desespero) o timbre vocal semelhante ao do filho de Dona Canô, marido da Paulinha, mano de Bethânia.
Rildo Hora, o produtor, foi felicíssimo ao resgatar duas pérolas da década de 70 que agora, em meio a sambas de altíssima qualidade que compõem o repertório, ganham o carimbo definitivo de clássicos - Esperanças Perdidas (não posso ficar, eu juro que não/não posso ficar eu tenho razão/já fui batizado na roda de samba), de Davi Moreira e Nelson Custódio; e Do Lado Direito da Rua Direita (Luís Carlos-Chiquinho).
Ambas arrebataram o Brasil através do grupo Originais do Samba. Na versão anos 90, a primeira é repaginada nas vozes de Délcio Carvalho e Joanna enquanto a segunda, através dos próprios Originais do Samba e o grupo Os Morenos. Por outro lado, não haveria necessidade de se pinçar Leva Meu Samba (Ataulfo Alves) e Samba da Minha Terra.
Por mais que sejam belas páginas do cancioneiro brasileiro o fato é que estão saturadas. Ah, façam-me o favor, não! Nem mesmo Alcione e Sandra de Sá, duas boas intérpretes, conseguiram acrescentar algo de novo às canções. Ainda bem que estão diluídas entre as 16 faixas de Casa de Samba 3. Resumo do samba: o projeto Casa de Samba ainda tem fôlego mas já se tornam visíveis, ou melhor, audíveis seus sinais de lassidão estética.





